O relógio de Ludovico rodava duas vezes por ano e anos houve que foram sempre nove horas a que horas fosse. Duas vezes, ora meses a fio sendo nove, ora outros tantos sendo dez. Dez ou nove consoante o mundo ajeitava os hemisférios para secar os Invernos ao sol.
Sabia as horas pelo estômago, sendo horas consoante o apetite. Divina a refeição, terrena a fome que a devora, irrelevante a multiplicação que de quatro terrenas vezes por três divinas vezes fazia que doze no pulso de qualquer outro menos descumpridor fossem os números pelos quais nemésicos, divinos os ponteiros apontassem a morte, espadas empunhadas por Deus junto ao pescoço, ponteiro suficiente o dos segundos apartando da terra e do céu nematóide a vida.
Ludovico cagando nisso tudo à proporção que exudiava às horas, avançando quando fosse fome destemido e de pescoço à mercê. Se lhe sobrassem mãos do banquete diria-mos que Deus se chamava Ludovico e media o tempo pelo apetite, e que aproximava a espada quando bem lhe aprouve-se e não quando certo numero de vezes rodassem os ponteiros no pulso de cada um. E parece compelir às dez Ludovico, pai de um filho precocemente falecido, como o são sempre os filhos, à presença no funeral de um vizinho já de uma idade que ninguém tem, de uma idade que não deixou nunca à mercê o pescoço. Deus estará talvez tão-mais saciado quanto mais famintos estão os que se lhe subordinam.
Ludovico é, enfim, a exepção, o que não tem fome, nem fome sacia. O que tem relógio, mas não tem horas.
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