quarta-feira, 23 de maio de 2012

A décima sétima - Penso-te logo existo

Penso-te logo existo, existo naquele caminho por onde te levei a casa cada vez que o reitero aquele caminho é a via sacra onde passo sem ser preciso ser pascoa ou sendo preciso ser pascoa todos os dias. Os aviões que não cabem inteiros  no céu que o teté a  teté dos prédios deixa ver parecem subordinar a cidade à sua sonora admiração tão sonoro quanto eu queria ser para te subordinar a atenção tão alto donde te queria ver ciumento entalada entre os prédios que deixam o jogo do quem ri primeiro para te olhar e atirar piropos num betão porcamente falado. Enquanto os livros fumam passivamente na secretária existo vagamente quando te penso ora menos vestida, ora nua e mais que nua e eis que tosse um livro do tabaco ou talvez da vergonha de tanta nudez e logo deixo de existir plasmando os olhos nas páginas que vão descorando do encarnado pejado para o amarelo amorfo do tabaco. E existo em sítios estúpidos nos quais terias vergonha de ser pensada se possível fosse saber-se se se é pensado. O Benfica menos acertivo e maçador no meio-campo basta, e lá vou eu solucionando o ciclo pirrónico com o penso-te logo existo. E eis que sem mais mal-amado Cardozo atira do meio da rua calando os adeptos que urrando e fazendo estilhaçar garrafas no chão me fazem perder-te na multidão de vozes que ingloriamente afasto com as mãos onde se vão enleanando e apropriando-se de mim que me vejo já agitando o cachecol.
Duvidoso método de existir este (ou de existir-te), mas diria racionalmente Descartes que "não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis"  e eu irracionalmente vou-te resolvendo enquanto pensar discursando o método à sanidade que se vai convencendo de que existes, enquanto o discurso não mude para o penso-te logo desisto.



sábado, 5 de maio de 2012

A décima sexta - cego como os que vêem

Tenho dezassete minutos para escrever esta crónica. Se me deito às seis quando as nuvens que creio feitas de todo o meu tabaco permitem que o sol desancore do sono as almas inavegáveis  dos que pegam às nove, é porque o dia desinteressa a quem pegar significa despegar. E a esses como a mim o dia gruda às coisas ao que são, e o que sobra saber é o que não são. E cada vez se sabe menos porque se vê demais, porque à noite quando apenas a pupilar excepção dos olhares felinos descobria a existência nocturna das coisas, e decerto porque a esses pouco lhes interessa o que não são, se alumia com candeeiros furtivos alvejando a inexistência como se imagina adejando contra o fumo das nuvens que condenso fazendo essaoutra existência precipitar sobre mim que repassado de distorções torço na almofada as insónias e ancoro no sonho, a vida possível no sono. E os outros de manhã lá vão felinos sobre as portas alarmantes dos transportes, enquanto eu humanamente vou cegando as insónias que palpam vagamente o sossego.