segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A última - Crónica explicativa da desilusão do perfeito

I-Antes da mente agitar a matéria


David. Está sempre aquém da guerra, para David nunca houve filisteu de seis côvados e um palmo. E se houvesse de quem seria o antebraço por que se mediram. David. Mais bela a obra de arte que a arte da guerra. Qualquer de ti não temas, enquanto guerrilheiro israelita, se dúbia a realidade, não temas que o mito matou Golias. Não temas que não há estátua dele a fazer-te sombra por mais alta que seja. Nem tão pouco temas a guerra. Estás sempre aquém da guerra. Mesmo que te moldassem o mármore a derrubar exércitos não farias mal a uma mosca. Manterias sempre a calma perfeita da obra de arte. A ti, filho do Deus vivo, não se te pode deixar de bradar a valentia. A ti, filho do Deus morto, se te sublima no pasmo imóvel de quem vê a perfeição e no pasmo vertiginoso se te admira o milagre pelo qual deste a teu pai a imortalidade que permanece famoso só por existires.
A ti, me confirma o óbice da possibilidade temporal, que não Miguel Ângelo, embora semelhante na perfeição pela qual deste a teu pai por existires, não sem dúvida de não seres a razão da existência na inversão irrespondivel da lógica reprodutora, a imortalidade senão apenas a satisfação plena da suficiência mortal. Não houve guerra, pela razão simples de entre nós a ausência de todo o preceito de ser, por inerência da condição da guerra: a paz. 
Belo dia se inaugura. Todo o tremelicar incorreto e tosco da natureza parece sobre ela um afago terno da sua causa. Se não com ele não houvera de despertar a mente, se eclipsaria a perfeição, mas no passo mesmo menos claro um intermédio desditoso do que ao homem se oferece. De modo que não reputo monstros à razão ou não fossem todos os pintores loucos. De modo que se espira-la a incoerência de seres perfeita e ao homem nada de perfeito se oferecer à vista, num sisal que mais próximo se abeira à medula. De modo que és bela pelo expediente lógico que o belo é tudo o que tem beleza num raciocínio passível de definir número. Goya, não será o sentimento que engendra monstros? Goya, antes de sentir a razão engendrou-ma perfeita. Antes de agilizar os sentidos a matéria não vibrava sensação de senão.   

II - Depois da mente agitar a matéria 

Depois que a mente se vicia, a pedra que se atira ao lago ondula ante os pés a réplica que nos comprova assim a duvidando, bem assim nos duvidando. Que eu sou lago que não merece essa réplica, mais retórico almejando eficácia, te imputo a perfeição só para que não converjamos, tudo para dizer que não, enfim. Menor dor daí. O lago ao que parece aquiescentemente  se foi considerando paradoxalmente ser vivo que não vive.
E quando a obra de arte vive, que fará ao autor se dele não gostar? E o segundo com que artilharia se haverá de guarnecer? 
Assim, o artista emala raivas, desilusões, inquietações, todo o belicismo em que o sentimento se converte, e a própria vida que não há-de o inimigo glorificar-se da presa de qualquer jeito. E as palavras como a pólvora equivoco de alquimistas, não elixir da vida mas peste que a invade. 
Se me recordo quem sai aos seus não degenera. A obra viva do artista haverá como ele de apreciar o belo. Não sendo belo o artista da obra perfeita  faria ele toda a espécie de cirurgia para poder permanecer adorando a obra bela que de si extraiu. Logo a vida reivindica a singularidade. Também que importa, o mais hábil do cirurgião não faria sem mazelas um transplante de cabeça, meter as miudezas que a grudam ao tronco do mesmo jeito, preservando-lhe o preceito que por não conheceres ou não apreciares repugnas. A obra de arte derivado ao material de que é feita nunca viverá, digam isso ao sonhador, digam isso perante ti cujo nome por óbvias razões omito que te envergonharia ser a obra de arte viva de um autor intraduzível na aparência. Mas olha que há teorias que depõem no sentido de que é belo o que provoca sensações independentemente da aparência. Também não corroboro, haveríamos de convergir.   

III - Conclusão

De modo que linha a linha se entretece de impossíveis o sisal. E obra que vive em luxuosos museus, o artista num ninho de ratos - e o sisal a apertar -, e a obra que veste bem, o artista um farrapo um buraco pegado -e o sisal a apertar, a apertar -, a obra numa geometria perfeita equilibradissima, o artista um desequilibrado que inventa vida no mármore - e o sisal, o autor a experimentar ao pescoço. E a corda, e a corda e a corda, ajusta, desajusta, mais um paradoxo aqui, um nó de imperfeições que se aperta mais conforme ao escopo, e a corda será que é aqui a vértebra, será mais à esquerda, talvez mais em cima, derivado da gravidade fica bem assim. 
O corda é a gravata do suicida que nessa condição por amor há obra, senão noutra solução de a ignorar no cilício constante da sua certeza ou destruí-la de tal forma que seja o seu pó a inversão de todo o sentimento, que seja amor o pó que lhe escorre dos dedos e não morte apesar de morte. 
Óbice superlativo o que decorre de que na obra viva ser sangue impassível de repor a tingir as mãos e não pó que sempre se poderia tratar de Fénix. 













  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A vigésima sexta - pobre exegeta

Que será do exegeta que sobre tal discurso houver de discursar: o senhor e o seu partido não têm credibilidade politica, andaram de pec em pec até se terem de ajoelhar perante os credores. Não tem dignidade politica, não tem honra politica, não tem sensibilidade politica, não tem humildade politica. O exegeta impregnado de Sócrates, Platão, Aristóteles, S. Tomás, S. Agostinho e dai por diante nunca houvera tropeçado em tanto catarpacio estudado  numa distinção de virtudes por tal critério: as virtudes politicas versus virtudes da alma. E se não erro no caso narrado nos dilucidará alternativamente: ou se há-de de considerar que tal discurso resulta de que no exercício daquela função não padece o destinatário da virtude predicada, o que implicaria a petitio principii de considerar desde logo que o politico exerce a sua função, por isso, dificilmente defensável;  ou se interpreta extensivamente o discurso não lhe cingindo a desvirtude à função e mais acertadamente se considerará de todo que é delas carente, e o difícil seria citar nomes de políticos envolvidos em casos judiciais, tão difícil seria...
- você é um animal politico senhor deputado 
e outro bem estudado de bibliografia aristotélica não se fica pedindo ebulido à mesa a defesa da honra
-tenha tento na língua senhor deputado. Devia saber que esta é a casa da democracia, não...não é a casa da sua tia, aí diz o que quer. Agora aqui, de si, como a todos nós, o que se exige é seriedade e elevação no debate politico e não ataques ad hominem que ferem de morte a democracia. 
E o exegeta no recato da sua poltrona
- epa que animais
Enquanto o retórico se fazia todo gravata em riste, prenhe de honra reposta 
- tenho-o dito senhora presidente
E o que me parece a mim? Bem, a mim parece-me apenas que os excelentíssimos visados levaram a peito  e à letra essa coisa da democracia representativa não pretendendo com o expediente retórico ultrapassar a bitola do bonus pater familias. De resto, assim bem como se ao Manel Jaquim o Tó da Burra lhe chamasse animal lavrador não haveria duvida: estava o arraial montado. 
O povo algum assoberbado na semana seguinte o Manel Jaquim deputado na assembleia do município. E como isto é sempre a subir, resta ao exegeta perguntar em que data e lugar lhe coube sobre o debate ajuizar, e bem assim os nomes dos respectivos intervenientes, doutos como seria de esperar de filhos de boas gentes. Até porque na aldeia no café central consta que uma palavra muito esquisita fez eclodir uma zaragata por pensar-se vil impropério em língua de outro Império.