David. Está
sempre aquém da guerra, para David nunca houve filisteu de seis côvados e um
palmo. E se houvesse de quem seria o antebraço por que se mediram. David. Mais
bela a obra de arte que a arte da guerra. Qualquer de ti não temas, enquanto
guerrilheiro israelita, se dúbia a realidade, não temas que o mito matou
Golias. Não temas que não há estátua dele a fazer-te sombra por mais alta que
seja. Nem tão pouco temas a guerra. Estás sempre aquém da guerra. Mesmo que te
moldassem o mármore a derrubar exércitos não farias mal a uma mosca. Manterias
sempre a calma perfeita da obra de arte. A ti, filho do Deus vivo, não se te
pode deixar de bradar a valentia. A ti, filho do Deus morto, se te sublima no
pasmo imóvel de quem vê a perfeição e no pasmo vertiginoso se te admira o
milagre pelo qual deste a teu pai a imortalidade que permanece famoso só por
existires.
A ti, me confirma o óbice da possibilidade temporal, que não Miguel Ângelo, embora semelhante na perfeição pela qual deste a teu pai por existires, não sem dúvida de não seres a razão da existência na inversão irrespondivel da lógica reprodutora, a imortalidade senão apenas a satisfação plena da suficiência mortal. Não houve guerra, pela razão simples de entre nós a ausência de todo o preceito de ser, por inerência da condição da guerra: a paz.
Belo dia se inaugura. Todo o tremelicar incorreto e tosco da natureza parece sobre ela um afago terno da sua causa. Se não com ele não houvera de despertar a mente, se eclipsaria a perfeição, mas no passo mesmo menos claro um intermédio desditoso do que ao homem se oferece. De modo que não reputo monstros à razão ou não fossem todos os pintores loucos. De modo que se espira-la a incoerência de seres perfeita e ao homem nada de perfeito se oferecer à vista, num sisal que mais próximo se abeira à medula. De modo que és bela pelo expediente lógico que o belo é tudo o que tem beleza num raciocínio passível de definir número. Goya, não será o sentimento que engendra monstros? Goya, antes de sentir a razão engendrou-ma perfeita. Antes de agilizar os sentidos a matéria não vibrava sensação de senão.
II - Depois da mente agitar a matéria
Depois que a mente se vicia, a pedra que se atira ao lago ondula ante os pés a réplica que nos comprova assim a duvidando, bem assim nos duvidando. Que eu sou lago que não merece essa réplica, mais retórico almejando eficácia, te imputo a perfeição só para que não converjamos, tudo para dizer que não, enfim. Menor dor daí. O lago ao que parece aquiescentemente se foi considerando paradoxalmente ser vivo que não vive.
E quando a obra de arte vive, que fará ao autor se dele não gostar? E o segundo com que artilharia se haverá de guarnecer?
Assim, o artista emala raivas, desilusões, inquietações, todo o belicismo em que o sentimento se converte, e a própria vida que não há-de o inimigo glorificar-se da presa de qualquer jeito. E as palavras como a pólvora equivoco de alquimistas, não elixir da vida mas peste que a invade.
Se me recordo quem sai aos seus não degenera. A obra viva do artista haverá como ele de apreciar o belo. Não sendo belo o artista da obra perfeita faria ele toda a espécie de cirurgia para poder permanecer adorando a obra bela que de si extraiu. Logo a vida reivindica a singularidade. Também que importa, o mais hábil do cirurgião não faria sem mazelas um transplante de cabeça, meter as miudezas que a grudam ao tronco do mesmo jeito, preservando-lhe o preceito que por não conheceres ou não apreciares repugnas. A obra de arte derivado ao material de que é feita nunca viverá, digam isso ao sonhador, digam isso perante ti cujo nome por óbvias razões omito que te envergonharia ser a obra de arte viva de um autor intraduzível na aparência. Mas olha que há teorias que depõem no sentido de que é belo o que provoca sensações independentemente da aparência. Também não corroboro, haveríamos de convergir.
III - Conclusão
De modo que linha a linha se entretece de impossíveis o sisal. E obra que vive em luxuosos museus, o artista num ninho de ratos - e o sisal a apertar -, e a obra que veste bem, o artista um farrapo um buraco pegado -e o sisal a apertar, a apertar -, a obra numa geometria perfeita equilibradissima, o artista um desequilibrado que inventa vida no mármore - e o sisal, o autor a experimentar ao pescoço. E a corda, e a corda e a corda, ajusta, desajusta, mais um paradoxo aqui, um nó de imperfeições que se aperta mais conforme ao escopo, e a corda será que é aqui a vértebra, será mais à esquerda, talvez mais em cima, derivado da gravidade fica bem assim.
O corda é a gravata do suicida que nessa condição por amor há obra, senão noutra solução de a ignorar no cilício constante da sua certeza ou destruí-la de tal forma que seja o seu pó a inversão de todo o sentimento, que seja amor o pó que lhe escorre dos dedos e não morte apesar de morte.
Óbice superlativo o que decorre de que na obra viva ser sangue impassível de repor a tingir as mãos e não pó que sempre se poderia tratar de Fénix.