As noites quentes quando na cidade não faz barulho são assustadoras pelo silêncio. É monstruosa a empresa de o vencer. Ateia-se um cigarro, mas a passa breve nem chega a dar a sensação de um encontro. Expele-se o fumo e o desvanecer-se no céu não logra obter nos sentidos o aparato de um milagre, nem a explicação cientifica surge com autoridade. Imaginados, a chuva, o vento, o frio, o trovão, são tão quentes como o calor, pelo menos nos dias silenciosos. Por isso, um livro. Uma rajada de conceitos que suponho, alguns se soubessem o que lhes sinto, fechar-se-iam como uma flor a quem o sol ainda não obrigou a despir-se. As flores são umas putas, mas a culpa é do sol. Se não abrissem... cedia de boa vontade a beleza pelo mistério da beleza, o perfume pelo mistério do perfume. Isto nos dias de barulho em que o pormenor pára o tempo.
É monstruosa a empresa de o vencer, não pelo barulho que se faça, mas pelo silêncio que não se ergue como fogo contra fogo, mas que é o mesmo fogo que por vontade e grandeza se extingue.
Não há noite quente em cidade muda que o silêncio dentro de nós não vença. O que eu gostava de escrever não em silêncio, mas silêncio mesmo.
Sem comentários:
Enviar um comentário