Vai para o Inferno e vai à fava, expressões coloquiais, mas às quais até hoje só à primeira atribuía ressonância patentemente religiosa. Sempre soube, nada sabendo, que deveria ser pecado comer a diabólica, embora nutritiva, semente da fava. Já deveria ter a sageza suficiente para perceber que a despesa do bolo rei a cargo de a quem ela calhasse não poderia augurar boa fama, mas, enfim, quão sempre tão ingénuos somos.
Diríamos que devaneio de uma estrela de rock, sempre implicativas e espirra-canivetes, e que os seguidores jovens adolescentes sem senso reféns desta moderna mitologia das superestrelas. Não, porém. O fundador desta nobilíssima religião aparece-lhes logo no ensino básico cujos ensinamentos oram cantarolando: num triângulo rectângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos. De certo importante, mas não evita, em casa, depois de um dia extenuante, uma refeição menos a gosto. Se introduzindo Pitágoras como grande matemático, seu fundador enquanto demonstração dedutiva, se acrescentasse ainda a sua qualidade de fundador de uma religião baseada na transmigração das almas e, mais importante, na abstenção das favas, era ver notas a subir. Mas, enfim, é esta a pedagogia pouco imaginativa e sem recursos que temos.
Religião no entanto malograda, porque, pasme-se, privar alguém do que gosta, não é boa maneira de arregimentar fiéis. Foi por isto, por os não regenerados da ordem de Pitágoras gostarem de favas, que a revolta se instalou e a religião não pode seguir o seu trilho história afora excomungado os Josés Cids deste mundo. Se usasse da mesma perspicácia que aquela que presdiu à descoberta do dito teorema iria perceber que não era boa ideia fundar uma religião baseada no pecado de comer favas para homens que possivelmente gostam de favas. Ora, menos perspicázes houve, pois que se ao diabólico legume muitos há que ainda engelham o nariz, não se somam tantos os que o engelham ao fêmeo sexo. Quem provou dos dois está comigo: a abstenção das favas mais lhe obvia o génio que o desautoriza. Ficam ainda alguns dos preceitos da ordem de Pitágoras, referidos por Burnet em Early Greek Philosophy:
- Abster-se de favas;
- Não apanhar o que caiu;
- Não tocar um galo branco;
- Não partir pão;
- Não passar sobre uma tranca;
- Não avivar o lume com ferro;
- Não comer de um pão inteiro
- Não despedaçar uma grinalda;
- Não se sentar numa quartola;
- Não comer o coração;
- Não passear em estradas;
- Não deixar andorinhas aninhar no telhado;
- Ao tirar a panela do lume não deixar a marca nas cinzas, mas agitá-las;
- Não se ver ao espelho junto de uma luz
- Ao despir a roupa de cama, enrolá-la e desfazer as impressões do corpo.
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