Quando tenho demasiado sono para dormir dá-me para andar por ai a pé. Rasguei o jardim do campo grande(fiquei ao fim de dois anos a saber onde era a junta de freguesia, fica entalada entre os edifícios da faculdade de ciências) e fiz a cidade universitária toda. Na faculdade de ciências é habitual um pavão escapar-se da cerca. Hoje atravessava civilmente (creio que se lhe pedissem o cartão de cidadão sacava-o das penas) a passadeira e assim que no jardim lá estava ele a bicar. E aquilo não pode ser tudo fome, devem fazer muitas as asneiras os pavões sempre a bater com a cabeça como muita gente faz quando ralha com a esposa ou quando falta a um exame, o pavão com remorsos
- porque é que fui fugir da cerca, porquê?porquê?
sem orgulho nenhum nisso de modo que que a cauda ficava recolhida. Passou um conhecido (que categoria intermédia é esta:conhecido) que não via faz dois ou três anos. Cumprimentei-o sem parar o passo, como reconhecendo que o não conhecia, com um aperto de mão como fazem os cavalheiros, os outros cruzam-se apenas sem necessidade de erguer membros e contrair músculos, ninguém disse que era fácil ser-se cavalheiro. A torre do tombo, que se extraiu ao castelo, imperial a muralhar arquivos, não vão os drogados ali ao pé sacar do arco e atirar inflamadas flechas. Não me pareceram para aí virados. Um jogava a apanhada com um papelito que espiralava a mangar-lhe os reflexos e o outro a assistir numa paternidade de seringas e a olhar-me como quem diz
- sabe como são as crianças...
e era um drogado com idade de pai e acabadez de avô. Segui pela faculdade de letras com os seus curso já obsoletos para o estádio universitário. Os mais gordos e velhos parece-me que têm todos medo de morrer e por isso correm em sentido contrário numa espécie de passadeira rolante que dá para o inferno com as duas mãos no rabo já assado do aconchegante lar de Belzebu, que sabe receber, aquilo do paraíso é bonito mas de inverno deve ser fresco. E eu lá ia todo cigarros e pacatez de imortal, mas a reconhecer que a ter de correr que seja contra a morte. Já ouço o pac, pac, pac, dos courts, deve ser um desporto especialmente descompressivo o ténis, quando me chatear o estudo pac, pac, pac, com a capa e contra-capa. Há muitas estátuas ali. Todas tinham os pés maiores que o resto, nem perdi tempo a perceber porquê e talvez por isso se apresentassem descalças, dado que aquele tamanho me parece difícil conseguir-se. Um tinha uma bola de rugbi e uma expressão de
-é minha e ninguém ma tira
e apesar de estátua e os incontornáveis handicaps que em termos de velocidade isso importa, consenti que dificilmente lha tiravam.
Desci, esbaforido, umas escadas, essa infernal invenção, onde no corrimão um pombo que bateu as asas e num estalar de dedos colocou-se no destino. É este o preço de se ter um cérebro que faz duas vezes um pombo, e o pombo ralado
-enquanto tu fazes equações quadráticas e de não sei quantos graus eu num bater de asas vejo Lisboa inteira
somos carregadores de cérebros e eu quero lá saber de raciocínios, eu quero é voar e isto de pensar tem-me dado mais problemas que outra coisa. E depois podia cagar lá do alto em cima de um inteligentissimo bípede que resolve equações de não sei quantos graus mas que leva com merda de um bicho que tem o cérebro do tamanho de uma unha, que delicia, sublime arrogância columbina. Cagar para alguém em sentido figurado já faz tanto pelo meu ego, imaginem se fosse merda a sério!
Chega talvez de imundo assunto intestinal e como as conversas de merda me desmotivam termino aqui o relato do passeio que não tinha outro propósito senão o de descobrir o caminho mais perto para sítio nenhum, malograda tentativa, vil ditadura a do verbo estar.
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