sexta-feira, 16 de março de 2012

A décima primeira - humildade da terra sem voz

Esta terra é uma lição de humildade sem voz. O nome e o verbo, ninguém, onde vos? Só se pode ser humilde sem voz, só se pode ser arrogante para alguém. Esta terra talvez um poema, um poema sem barulho, um poema afónico que só a alma sabe tocar. Só a alma o instrumento adequado para tocar a sinfonia sem barulho que é esta terra. A minha avó que não se ouve em excesso e as couves dela já todas comidas ou por ela, umas com ela, outras por outros como ela. A ameixeira do meu avô ora sem propriedade. Sempre me pareceu algo repugnante pela vaidade dos frutos perfeitamente amarelos como as pérolas das senhoras nas orelhas estas últimas amiúde ouvindo poemas sinfónicos em salas e teatros arrogantes. a ameixeira que creio sita aqui só tendo alma ouve e se a tivesse a do meu avô. Penso que a alma do meu avô morreu mais lentamente na ameixeira dele que nele. Ensurdeceu a ameixeira. No lago que o meu pai fez, multiplica-se peixitos que mudam de direcção tão facil e naturalmente como ele nunca conseguiu mudar. Á noite os postes sucedendo-se porque é noite, se fosse dia nem reparava. Reparei que se fosse dia não dava por eles. Alumiaram-me por dentro. A hora de ponta que não traz para casa mais que três ou quatro carros. A estrada à qual pouco importa se carros, se mulos, se pássaros pousando só para fugir quando passa algo como jogando
- não me apanhaste!
Gente com alma e sem voz. O velho, ora desordenando a areia no chão com um pauzito, ora o mesmo pau regendo a orquestra afónica aventurando-se sem razão no ar conforme o desentorpecimento dos ossos o permita e bem assim a lucidez da alma ou falta dela, não sei. As memórias sustendo-se em tudo o que ainda vigora, também humildes nunca ambicionando a existência das coisas sensiveis. Aqui recordo-me que quero esquecer tudo, talvez arrogante demais para ouvir com alma e de menos para os salões. Também não sei. Como outros aspiro ao silêncio.

A décima - incomum como os demais

Só não serei um homem comum porque todos os demais homens são homens incomuns. Se for incomum como todos os demais homens que são incomuns sou igual a eles incomum. Não posso ser o único homem comum. Não posso ser o único homem incomum. Só posso ser. Posso aspirar à distinção e à indistinção, aspirar, porém, e sempre como os demais. Indistinto ou distinto como os demais. Preso à humanidade como os demais. Agrilhoado à vida, temendo a liberdade da morte, temendo que é menos livre a morte que a vida. Estar vivo é ter medo de morrer, morrer é não puder sequer ter medo. Ter medo é mau, pior será não puder sequer ter medo. Tenho inquietantemente medo da vulgaridade, mais sabendo que vulgar ou invulgar sou sempre como os demais.

sábado, 3 de março de 2012

A nona - greve na prespectiva de Anselmo

Zé iniciara a conversa:
- porque não és como os demais?
Ancelmo pronta e lapidarmente retorquira:
- pela mesma razão que os demais não são como eu.
As coisas complicar-se-iam não fosse Vicente declarar que eram horas e mais que horas as de fechar o café. Já noutras circunstâncias a sucinta iniciação de Zé em Direito lhe havia permitido explicar a Anselmo que o direito à greve era um direito fundamental que todos tinham. Ao que Anselmo nessa altura dissera que o único direito fundamental é ter deveres. Zé ebuliu e incivilmente lhe atirara os maiores impropérios. Aparte as zangas, eram amigos, ou talvez apenas vizinhos e como por inerência amigos condição que o corriqueiro mexericar das esposas a casas alternadas fatalizava.
No dia da greve Anselmo saiu cedo. Aproveitou a greve para trabalhar, e protestos apenas com frio que entorpecia as mãos as quais bafejava com alma sempre quente. Plantara batatas o dia todo e no fim quando já mais quentes as mãos que alma o café de Vicente como nunca merecido lhe repusera integra e invergável a alma donde lhe havia rebentado a replica a Zé " pela mesma razão que os demais não são como eu"
O ano fora abundante. Não só as batatas de Anselmo se pareciam multiplicar na arrecadação consoante mais se tiravam, como nas ruas se multiplicavam os paralisados, as greves. Zé no dia da greve afundara na poltrona o sono. No dia da greve por mais geral que seja há sempre um sector que a ela não cede, as domésticas. Nem tão-pouco cede a fome e o sono só a ela cedendo permite que Zé exija à esposa o jantar e precisou que caldo verde. Caldo no qual, bem se sabe, são insupriveis as batatas. Emília esgotara-as dois dias antes, eram quase dez da noite. Não podia simplesmente privar Zé do seu caldo, era zanga certa e incerto o desfecho dela como cada vez mais temia. Divertiu o marido com uma qualquer trivialidade e deixara-o a ruminar mexericos enquanto descalçara os sapatos e fora pedir dispensadas a Zulmira três ou quatro batatas. Solicitamente carregara a amiga com sete ou oito das batatas que Anselmo adubara com a alma.
As dez e meia, o jantar estava na mesa. Zé desconhecendo a escassez do tubérculo e a saída da mulher, comia consolado. Anselmo que aquando da visita de Emília, que não odiava, se encontrava no banho conhecera do caso quando perguntou a Zulmira quem era e o que queria.
Zé no dia seguinte foi ao Vicente e perante Anselmo gabara o caldo a mulher. Anselmo sentiu que lhe haviam comido parte da alma. Paralizaram-se-lhe as palavras e nada disse.