Zé iniciara a conversa:
- porque não és como os demais?
Ancelmo pronta e lapidarmente retorquira:
- pela mesma razão que os demais não são como eu.
As coisas complicar-se-iam não fosse Vicente declarar que eram horas e mais que horas as de fechar o café. Já noutras circunstâncias a sucinta iniciação de Zé em Direito lhe havia permitido explicar a Anselmo que o direito à greve era um direito fundamental que todos tinham. Ao que Anselmo nessa altura dissera que o único direito fundamental é ter deveres. Zé ebuliu e incivilmente lhe atirara os maiores impropérios. Aparte as zangas, eram amigos, ou talvez apenas vizinhos e como por inerência amigos condição que o corriqueiro mexericar das esposas a casas alternadas fatalizava.
No dia da greve Anselmo saiu cedo. Aproveitou a greve para trabalhar, e protestos apenas com frio que entorpecia as mãos as quais bafejava com alma sempre quente. Plantara batatas o dia todo e no fim quando já mais quentes as mãos que alma o café de Vicente como nunca merecido lhe repusera integra e invergável a alma donde lhe havia rebentado a replica a Zé " pela mesma razão que os demais não são como eu"
O ano fora abundante. Não só as batatas de Anselmo se pareciam multiplicar na arrecadação consoante mais se tiravam, como nas ruas se multiplicavam os paralisados, as greves. Zé no dia da greve afundara na poltrona o sono. No dia da greve por mais geral que seja há sempre um sector que a ela não cede, as domésticas. Nem tão-pouco cede a fome e o sono só a ela cedendo permite que Zé exija à esposa o jantar e precisou que caldo verde. Caldo no qual, bem se sabe, são insupriveis as batatas. Emília esgotara-as dois dias antes, eram quase dez da noite. Não podia simplesmente privar Zé do seu caldo, era zanga certa e incerto o desfecho dela como cada vez mais temia. Divertiu o marido com uma qualquer trivialidade e deixara-o a ruminar mexericos enquanto descalçara os sapatos e fora pedir dispensadas a Zulmira três ou quatro batatas. Solicitamente carregara a amiga com sete ou oito das batatas que Anselmo adubara com a alma.
As dez e meia, o jantar estava na mesa. Zé desconhecendo a escassez do tubérculo e a saída da mulher, comia consolado. Anselmo que aquando da visita de Emília, que não odiava, se encontrava no banho conhecera do caso quando perguntou a Zulmira quem era e o que queria.
Zé no dia seguinte foi ao Vicente e perante Anselmo gabara o caldo a mulher. Anselmo sentiu que lhe haviam comido parte da alma. Paralizaram-se-lhe as palavras e nada disse.
Sem comentários:
Enviar um comentário