sábado, 7 de abril de 2012

A décima quinta - ecraver com'ás pessoas

Não se pode dizer de Alfredo que seja um versado em literatura, o exame da quarta classe onde concluíra os estudos servira-lhe de pouco, e o que sabia era de cor.
- Atão e ercraver com'ás pessoas ó Zé?
Não me parecia que "quando deixares de ser um iliterado de merda", fosse resposta a dar.
-Ainda tenho que aprender muito - e no fim distingui-o com um "senhor", "ainda tenho que aprender muito... sr. Alfredo"
E eu erguendo palavras a custo com as gruas da imaginação para que Alfredo não sei como, e se calhar, não dizendo mais que a verdade. Eu impregnando cada palavra com o que escorre das memórias que a custo torço, para que ele sugira que escreva como as pessoas. Escreverei como gente, quando Alfredo ler como gente e a resposta "quando ler como as pessoas", "quando ler como as pessoas...sr.Alferedo".
Sem que o não suspeita-se, antecipou-se:
-Na sei su conhecias ó não, mas olha, este é puto mai novo, abalaste da terra, mas é pa veres que aqui tamem se trabalha. Foi ele que desencantou lá da maquineta uns rabiscos que tinhum o nome, lá alguém le disse na escola que eras destas bandas e ele amostrou-me...
-Tá certo, sr.Alfredo, é esperto o raio do puto
E não sabia o que lhe dizer. Dire-lhe-ia para não escutar o pai e para aprender a saber ler e que para isso necessitava de encher ele próprio as palavras com as suas memórias, e com os seus problemas, e com as suas idiossincrasias, e com os ralhetes do seu pai. Mas nada disto me sugeria a infante puerilidade de André. Apeteceu-me dar-lhe uma palavra, como se um balão que ele enchia e soltava no ar para que lá no alto admira-se e sonhasse. Adverti-o, porém, para a crescente importância da matemática e para que a não esquece-se, com o que creio ter dado razão a Alferedo.
-Olha o qu'ele te tá dezer, que este é dos bons que a gente cá tem. Olha pó qu'ele diz, na olhes pó qu'ele escreve.
E lá foram, a criança pulando e só não se sumindo no céu como uma palavra, porque o pai lhe agarrava firme a mão.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A décima quarta - do avesso sou mais que o mundo

Quando se dimensiona perante mim imenso o mundo vergado sobre ele, por mais irrisório que ali me perfile, penso sempre que virado do avesso nunca mais que ferro e níquel enquanto que eu se assim também me revira-se nele não caberia. Exércitos de cogitações guerrilhando a ordem das coisas, pessoas feitas sem coito como assim o foram Anselmo, Zé, Ana Beatriz, Vargas, Ludovico e outros de que não têm relato (talvez o sexo da literatura seja a imaginação), árvores com letras penduradas nas curvas das quais pilotos de automóveis experimetando a potência da imaginação, e os automóveis mais lentos que os mulos cortando a meta numa reiteração constante de nova partida, um navio encalhando numa vírgula que lhe compassa o destino e exasperada a tripulação ebulindo num ponto de exclamação em que a frase se termina sem que mais noticias. Pessoas que chovem de baixo para cima e nem sequer se tratam de exumações, mas chuva que cai da litosfera para atmosfera, aí onde, em morrendo alguém, como só acontece quando quero, se abre sepultura, ou não fossem as pessoas para o céu quando morrem. Um colibri derrubando um elefante de cujas entranhas se alimenta ele e respectiva família. Livros que abrem e fecham com fome sem nada no estômago, de vez em quando meio necrófagos meio canibais ruminando restos de outros livros e assim se escrevendo, uma menina pobre aqui, um menino rico ali, acolá já decomposta uma família oitocentista que não aprova o namoro, mais além um dilema intragável que se come porque os legumes apesar de tudo fazem bem. E tu, sabes bem, quem te evita é a epiderme contra à qual te atiras e nela se te molda de vez em quando um cotovelo, ou a ponta do nariz, ou quando tenho sorte um mamilozito, por isso, se me virar do avesso sabes que seremos felizes, só o pormenor da tua inexistência o tem protelado.
Só não me mete medo essa grandeza desmedida do mundo porque do avesso a medida sou eu que a faço e se é grande é porque alguém assim o considera. E se necessário for, sento num monte de ferro ou níquel um palhaço e meto-me na lua a assistir troçando.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A décima segunda - os pássaros metáforas

Em tempos idos, não como agora, os pássaros enquanto pertencentes à categoria das aves, não metáforas adejando; os adjectivos, não raro cores ou bonito e feio ou bom e mau, senão sempre; as pessoas, coleguitas de escola outros a quem previligiava como amigos, vizinhos, professores e professoras, motoristas do autocarro, familiares e demais proximidades, não Anselmo a quem chamo e ele ensurdecido ruminando ininterruptamente os mexericos ou Ludovico que creio viver-me no pulso, ninguém vive no pulso de outra pessoa quanto muito um relógio, mas é Ludovico, nem tão-pouco Horácio esse alienado de merda que semeia imaginação e houve barcos onde os não há como só eu o vendo a ele, creio que também só ele é que me consegue ver. A escrita talvez subsistindo como necessidade, razão as ordens da professora outrora, hoje, quando o vagar consome o dever e o medo da inutilidade ameaça a consciência.
Em tempos idos, não como agora, sempre agora, não havia ido ainda tempo algum. E agora cada segundo parece contar a sério, não só o sol a pôr-se que irremediava a brincadeira para o dia seguinte. Agora a cada segundo desmaterializo-me numa sucessão de memórias interminável e inatalhável, mais parecendo sempre uma memória a todo o tempo do que fui ou do que serei. O tio patinhas que fora crucial na sua ganância, cede a listas da Forbes ou noticias de multimilionários concertando posições sobre o aumento dos impostos nos EUA; o Dartacão e o genérico que sorvi irreprimivelmente na memória, hoje quando não o contenho no silencio cada vez mais inadequado, e a Julieta seu amor outrora insubsumivel agora o conceito abstracto ao qual inevitavelmente te reconduzo. O Son Goku, cuja correcção do nome nem confirmo, sempre valente, sempre forte, parecendo-me tão importante quanto César Augusto, Carlos Magno, Napoleão, o nosso Afonso Henriques, duma importância tal que não tenho a certeza se não ignorava os nomes destes últimos, talvez o nosso primeiro rei fosse bem lembrado na escola, pese embora no recreio reinasse nas conversas Son Goku e os restantes personagens. No recreio eu era o Figo, o Telmo o Rui Costa, o Filipe o Enke que já morreu, o Zé Mário, o Marreta, o Armandico teriam também os seus ídolos de cujo nome se apropriavam, mas que já não recordo. E agora o futebol, quando possível, entre duas ou três cervejas consoante a companhia, o sete, o Ronaldo entre herói invenciel e multimilionário, o Benfica babilónico onde Nelson Oliveira nos quinze ou vinte minutos que joga se vai prometendo como futuramente indiscutivel na selecção.
E agora não lhes levo mal, quer ao tio patinhas um materialista inveterado, quer a Dartacão por ser um fiel servidor do ancien régime, quer a Son Goku por fazer prevalecer a força sobre a razão ou por não triunfar pela força da razão mas quase sempre pela razão da força. Apesar de tudo parecem-me bons exemplos, melhores que Napoleão e Magno e Afonso Henriques.