segunda-feira, 2 de abril de 2012

A décima segunda - os pássaros metáforas

Em tempos idos, não como agora, os pássaros enquanto pertencentes à categoria das aves, não metáforas adejando; os adjectivos, não raro cores ou bonito e feio ou bom e mau, senão sempre; as pessoas, coleguitas de escola outros a quem previligiava como amigos, vizinhos, professores e professoras, motoristas do autocarro, familiares e demais proximidades, não Anselmo a quem chamo e ele ensurdecido ruminando ininterruptamente os mexericos ou Ludovico que creio viver-me no pulso, ninguém vive no pulso de outra pessoa quanto muito um relógio, mas é Ludovico, nem tão-pouco Horácio esse alienado de merda que semeia imaginação e houve barcos onde os não há como só eu o vendo a ele, creio que também só ele é que me consegue ver. A escrita talvez subsistindo como necessidade, razão as ordens da professora outrora, hoje, quando o vagar consome o dever e o medo da inutilidade ameaça a consciência.
Em tempos idos, não como agora, sempre agora, não havia ido ainda tempo algum. E agora cada segundo parece contar a sério, não só o sol a pôr-se que irremediava a brincadeira para o dia seguinte. Agora a cada segundo desmaterializo-me numa sucessão de memórias interminável e inatalhável, mais parecendo sempre uma memória a todo o tempo do que fui ou do que serei. O tio patinhas que fora crucial na sua ganância, cede a listas da Forbes ou noticias de multimilionários concertando posições sobre o aumento dos impostos nos EUA; o Dartacão e o genérico que sorvi irreprimivelmente na memória, hoje quando não o contenho no silencio cada vez mais inadequado, e a Julieta seu amor outrora insubsumivel agora o conceito abstracto ao qual inevitavelmente te reconduzo. O Son Goku, cuja correcção do nome nem confirmo, sempre valente, sempre forte, parecendo-me tão importante quanto César Augusto, Carlos Magno, Napoleão, o nosso Afonso Henriques, duma importância tal que não tenho a certeza se não ignorava os nomes destes últimos, talvez o nosso primeiro rei fosse bem lembrado na escola, pese embora no recreio reinasse nas conversas Son Goku e os restantes personagens. No recreio eu era o Figo, o Telmo o Rui Costa, o Filipe o Enke que já morreu, o Zé Mário, o Marreta, o Armandico teriam também os seus ídolos de cujo nome se apropriavam, mas que já não recordo. E agora o futebol, quando possível, entre duas ou três cervejas consoante a companhia, o sete, o Ronaldo entre herói invenciel e multimilionário, o Benfica babilónico onde Nelson Oliveira nos quinze ou vinte minutos que joga se vai prometendo como futuramente indiscutivel na selecção.
E agora não lhes levo mal, quer ao tio patinhas um materialista inveterado, quer a Dartacão por ser um fiel servidor do ancien régime, quer a Son Goku por fazer prevalecer a força sobre a razão ou por não triunfar pela força da razão mas quase sempre pela razão da força. Apesar de tudo parecem-me bons exemplos, melhores que Napoleão e Magno e Afonso Henriques.

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