Não se pode dizer de Alfredo que seja um versado em literatura, o exame da quarta classe onde concluíra os estudos servira-lhe de pouco, e o que sabia era de cor.
- Atão e ercraver com'ás pessoas ó Zé?
Não me parecia que "quando deixares de ser um iliterado de merda", fosse resposta a dar.
-Ainda tenho que aprender muito - e no fim distingui-o com um "senhor", "ainda tenho que aprender muito... sr. Alfredo"
E eu erguendo palavras a custo com as gruas da imaginação para que Alfredo não sei como, e se calhar, não dizendo mais que a verdade. Eu impregnando cada palavra com o que escorre das memórias que a custo torço, para que ele sugira que escreva como as pessoas. Escreverei como gente, quando Alfredo ler como gente e a resposta "quando ler como as pessoas", "quando ler como as pessoas...sr.Alferedo".
Sem que o não suspeita-se, antecipou-se:-Na sei su conhecias ó não, mas olha, este é mé puto mai novo, abalaste da terra, mas é pa veres que aqui tamem se trabalha. Foi ele que desencantou lá da maquineta uns rabiscos que tinhum o té nome, lá alguém le disse na escola que eras destas bandas e ele amostrou-me...
-Tá certo, sr.Alfredo, é esperto o raio do puto
E não sabia o que lhe dizer. Dire-lhe-ia para não escutar o pai e para aprender a saber ler e que para isso necessitava de encher ele próprio as palavras com as suas memórias, e com os seus problemas, e com as suas idiossincrasias, e com os ralhetes do seu pai. Mas nada disto me sugeria a infante puerilidade de André. Apeteceu-me dar-lhe uma palavra, como se um balão que ele enchia e soltava no ar para que lá no alto admira-se e sonhasse. Adverti-o, porém, para a crescente importância da matemática e para que a não esquece-se, com o que creio ter dado razão a Alferedo.
-Olha o qu'ele te tá dezer, que este é dos bons que a gente cá tem. Olha pó qu'ele diz, na olhes pó qu'ele escreve.
E lá foram, a criança pulando e só não se sumindo no céu como uma palavra, porque o pai lhe agarrava firme a mão.
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