terça-feira, 26 de junho de 2012

A vigésima primeira - o sapato de pano

Fui ao lar ver o meu avô, encontrei-o de saúde apesar de agasalhado num dia de quarenta graus. Lar que nem em sentido figurado, significando casa de família, reproduz nada daquilo. Lar é uma espécie de meio caminho entre casa e hospital ou pior entre casa e morte. Uma espécie de purgatório. Mas como purificar almas ali, suponho que se as senhoras não os limpassem zelosamente em preceitos de coisas, era fétido o cheiro, seriam infernais os devaneios a decrepitude de sanatório.
O que comeu hoje o que não comeu, não está calor para essa camisola, e uma senhora  a tentar na poltrona intermitente por detrás da cadeira do meu avô calçar os sapatos de pano, elásticos mas ainda assim teimosos, escapadiços. Como vão os estudos, como não vão, quando partes, quando regressas, está calor não está, e a senhora a reiterar os sapatos.
A senhora de unhas gladiformes tentando coloca-las como alavanca entre o sapato e o tornozelo numa de tentativa-e-erro. E eu já amedrontado sobre o modo de descrever aqueles movimentos: numa folha, numa de tentativa-e-erro, calça não calça, cai, apanha, volta a cair, escrevo, risco, volto a escrever, volto a riscar. Permaneceu descalça, como a minha a folha pior que branca com letras imperceptíveis sob os gatafunhos como grades de celas. À senhora acorreram três empregadas do lar, tantas como só no futebol acontece quando alguém se lesiona. Demoram para o sucesso um tempo que não quis cronometrar, não mais que quinze ou vinte segundos menos que os que ela perdera só a convencer a flexibilidade dos rins.  A mim ninguém me veio ajudar como equipa médica de futebol aplicando aquele spray na imaginação, forçando o entorpecimento das metáforas, as câimbras da sintaxe, nada. Tive inveja de não conseguir calçar um sapato.
Um livro o sapato de pano que nunca conseguirei calçar.

     

sábado, 23 de junho de 2012

A vigésima - o regresso

Assim que cheguei à estação, ainda as rodas da mala rodavam já sem a ajuda da minha mão, passa uma senhora, cigana por causa das socas penduradas as duas numa só mão da qual necessitou apenas de dois dedos que batiam os segundos uma na outra a dizer que o tempo passa, embora, de resto, tudo signifique que o tempo passa, eu apesar de ter um relógio no pulso só me apercebi com as socas a baloiçarem nos dedos e se caíssem diria que o tempo acabou, di-lo-ia sobretudo ela.
Espero pela pressa atrasado do meu tio, corro os santos todos da montra: quinze nossas senhoras para uma só mãe de Jesus, e eu que queria tanto ter outra que já perdi a minha, talvez mereça mais afinal é Jesus o filho de Deus e eu sou só eu. A base das figuras reproduzia o nome do respectivo bem-aventurado e de quem era padroeiro. S.Marçal dos bombeiros é o que me lembro. E o meu tio já de bagageira aberta, vi-lhe um cigarro ao canto apesar de já não fumar, sempre apressado e parecendo-o ainda mais derivado da hérnia.
Chegado a casa já o meu irmão se via a contas com as impingidelas das senhoras para a festa de mais uma nossa senhora, percebi que a expressão"são mais que as mães" radica na ascendência materna de Jesus Cristo e que dizer nossa senhora como nosso senhor repugna com a força da infidelidade.
A sensibilidade do meu irmão permitiu-lhe um
-já ai vens
sólido como as pedras que pisava, senti uma pedra a bater-me na cabeça. A ladradura dos cães pareci reprovar-lhe o cumprimento ou talvez só a saudade de mim, uma saudade desinteressada sem circunlóquios apenas aquilo
- estás aqui e por isso ladro
A senhora da frente faz pão e levanta-se à hora que me deito. Quando acordar lá estará o pão oferecido como obrigação de vizinhança a dizer que deu por mim ontem ainda acordado àquelas horas e a repeti-lo no estomago até que os sucos gástrico e os movimentos peristálticos tornassem ininteligivel a sua voz e me permitissem dormir.
As senhoras do peditório disseram que estava diferente, o cabelo, os óculos, o relógio no pulso. O vento com mãos de segurança a dizer que a porta da rua é a serventia da casa. O velho sicófago junto da árvore olhava e dizia um
-ora seja bem aparecido senhor doutor, não há quem o veja
cumprimentador mas ainda assim expulsivo,
-se quiseres figos come
como quem diz dou-tos mas não me chateis.
Mais à frente, naquilo que se compreendia a soleira de uma porta numa ruina, outro velho este a cuspilhar para a areia que amassava com um pauzito como quem prepara a terra em que se enterrará, nem quis repara em mim.
Tudo a aboar-se de mim, tudo dito num sotaque que ele próprio dizia
- na te quero aqui
Fui-me embora asseteado pela chuva, assoberbado pela rudez das coisas, um exército de pessoas e coisas e sentimentos articulados a fecharem-me a porta daquela terra com mãos e pés e ombros, e os cães atrás da multidão sentados lado a lado a dizer que quando regressa-se continuariam a ladrar.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A décima nona - a arma de Carlos

Hoje Carlos levou uma arma escondida no casaco. Só a sabia esconder como outro objecto qualquer, e nem era paneleiro, era só dum tempo e de um hemisfério em que as crianças aprenderam desde cedo a jogar à escondidas, as espicaçar as reprimendas e a experimentar os castigos das mães quando se eclipsava da decoração da sala um qualquer bibelot. O Carlos que pintara um bigode de Hitler ao espelho e que enterrou de susto a cabeça junto ao peito e os braços e as pernas e mais membros houvesse a estorvar-lhe o rosto. O Carlos que esgotara o whisky da garrafeira no dia em que havia previsto pedir a mão de Sofia, mão que regurgitara numa papa de amarelos fétidos e sobre a qual aterra a face que naquela noite tremera a ultima vez no estrondo quase sísmico com que Sofia fechara a porta pela qual nunca mais entrara. Naquele dia Carlos levou uma arma escondida. Naquele dia não havia dia, a história passa-se a preto e branco, as últimas cores de que há memória são as do amarelo emético do whisky mal diliuido no almoço. Com Sofia saíram as cores, as últimas que viu foi já com a cabeça no chão pela greta da porta.
(Eu próprio não sei de que terá ele coragem com aquela arma, com aquela bebedeira que luta pela vida do seu corpo prendendo os músculos, sedando as memórias.)
Às 23h55m, esboçou os primeiros movimentos, como se o prototipo de Deus a verificar as ferramentas do corpo, estica uma perna ali, roda um pulso, as cervicais do pescoço, um trambolhão no vomitado quando suspende um pé a tentar o equilíbrio. Na televisão riem-se dois homens,
-palhaços
E uma garrafa voa sobrevoando o sofá até estalar no ecrã
-riam-se agora cabrões, palhaços de merda
Enquanto sai bate a meia noite, uma bebedeira de meia noite, a bater mais que doze vezes na paciência da casa que suspira de alivio quando a maçaneta roda e pergunta aos homens da televisão se se encontram de saúde.  
No Teixeira comenta-se o casal,
-como é que aquele pedaço do céu se mete com aquele atado
-aposto que nem tem picha para ela
Enquanto isso, ele já no carro que ziguezagueava na estrada com os sinais de que se nota somente a intermitência a avisar que uma estrada porque carros nem vê-los. Enquanto conduzia com a ponta do nariz esburraçada no para-brisas, um bando memórias encapuçadas e armadas até aos dentes verificavam a artilharia. No banco de trás uma que lhe apontava à nuca disparara, por sorte que uma curva dada com rangeres de pneus os desviou para o tejadilho.
Encontrou-a num banco. Ela obedeceu-lhe e levantou-se. As memórias perfilaram-se em posição de tiro sobre a calçada, do outro lado as cores desferiam pinceladas num rubor de chacina, e um verde que atinge uma lembrança de uma menina que passava todos os dias no corredor da escola a olhar discretamente para que as amigas não reparassem que se dirigia ao rapaz tímido que encostava o ombro à parede e virava os olhos. A lembrança vira-se contra o seu general, ambos a travarem-se de razões até que de arma apontada à cabeça o obriga a dar vagarosos e coagidos passos até à boca de Sofia que lhe sente a arma no bolso de dentro do casaco. Não sei o que pensou Sofia, creio que Carlos não se matou, nem creio ter morto ninguém.  E como foi um escritor que me contou a história não sei se tão-pouco se tratava de uma arma se uma metáfora para significar uma morte de amores, um arco e flecha de cupido.  

      

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A décima oitava - o presumivelmente humano

Hoje fui passear com o meu amigo António, um anda daí que não pude denegar-lhe. No metro havia aquilo que presumi um homem, ilidível presunção em todo caso: umas botas que excediam largamente o comprimento dos pés, a boca que a falta de dentes encostava ainda mais à nuca, uma cabeça de tartaruga a sair dos ombros de cabide. O nariz rebentava viçosamente da testa grande ou mais derivado da boca ficar muito atrás. Levantaram aquela cabeça duas pernitas de flamingo cuja exiguidade denunciavam umas calças justas até ao tornozelo aí se centrifugando ante as botas numa largura incorrecta. O António descreveu-o melhor que eu: "chupado" parando dolosamente no "chu", "chu-pado". Desinteressei-me do que falavam ele e o amigo de que reparei um relógio de visor assente nas veias. O António mirava o desabrigo das intumescências femininas e bradava ao verão. Não me excluo da pouca vergonha como uma senhorita classificou o olhar declarado de António entre os dedos enrugados, ou rugas endedadas. Não me excluo, mas tanto me espantou a prosperidade dos seios académicos, quanto a adicta senilidade do presumível espécime da raça humana. .
O António alarvejando-me coisas ao ouvido:
- Mais que papável, não?
- Começa na ponta dos cabelos e terminava no último dedo do pé, toda.
O aviso sonoro do metro pontapeou-nos da carruagem, as pernas de flamingo exguiavam-se por entre a hora de ponta e o seu amigo mais desinteressante que ele talvez, e ele talvez, saido da estação, batesse as mãos e fosse para casa a voar, casa que quase instintivamente lhe excluí pela aparência. Quem voa viverá, talvez como escreve, onde quer. Não lhe fará falta, assim sinceramente o espero.