Fui ao lar ver o meu avô, encontrei-o de saúde apesar de agasalhado num dia de quarenta graus. Lar que nem em sentido figurado, significando casa de família, reproduz nada daquilo. Lar é uma espécie de meio caminho entre casa e hospital ou pior entre casa e morte. Uma espécie de purgatório. Mas como purificar almas ali, suponho que se as senhoras não os limpassem zelosamente em preceitos de coisas, era fétido o cheiro, seriam infernais os devaneios a decrepitude de sanatório.
O que comeu hoje o que não comeu, não está calor para essa camisola, e uma senhora a tentar na poltrona intermitente por detrás da cadeira do meu avô calçar os sapatos de pano, elásticos mas ainda assim teimosos, escapadiços. Como vão os estudos, como não vão, quando partes, quando regressas, está calor não está, e a senhora a reiterar os sapatos.
A senhora de unhas gladiformes tentando coloca-las como alavanca entre o sapato e o tornozelo numa de tentativa-e-erro. E eu já amedrontado sobre o modo de descrever aqueles movimentos: numa folha, numa de tentativa-e-erro, calça não calça, cai, apanha, volta a cair, escrevo, risco, volto a escrever, volto a riscar. Permaneceu descalça, como a minha a folha pior que branca com letras imperceptíveis sob os gatafunhos como grades de celas. À senhora acorreram três empregadas do lar, tantas como só no futebol acontece quando alguém se lesiona. Demoram para o sucesso um tempo que não quis cronometrar, não mais que quinze ou vinte segundos menos que os que ela perdera só a convencer a flexibilidade dos rins. A mim ninguém me veio ajudar como equipa médica de futebol aplicando aquele spray na imaginação, forçando o entorpecimento das metáforas, as câimbras da sintaxe, nada. Tive inveja de não conseguir calçar um sapato.
Um livro o sapato de pano que nunca conseguirei calçar.
Um livro o sapato de pano que nunca conseguirei calçar.