quinta-feira, 21 de junho de 2012

A décima oitava - o presumivelmente humano

Hoje fui passear com o meu amigo António, um anda daí que não pude denegar-lhe. No metro havia aquilo que presumi um homem, ilidível presunção em todo caso: umas botas que excediam largamente o comprimento dos pés, a boca que a falta de dentes encostava ainda mais à nuca, uma cabeça de tartaruga a sair dos ombros de cabide. O nariz rebentava viçosamente da testa grande ou mais derivado da boca ficar muito atrás. Levantaram aquela cabeça duas pernitas de flamingo cuja exiguidade denunciavam umas calças justas até ao tornozelo aí se centrifugando ante as botas numa largura incorrecta. O António descreveu-o melhor que eu: "chupado" parando dolosamente no "chu", "chu-pado". Desinteressei-me do que falavam ele e o amigo de que reparei um relógio de visor assente nas veias. O António mirava o desabrigo das intumescências femininas e bradava ao verão. Não me excluo da pouca vergonha como uma senhorita classificou o olhar declarado de António entre os dedos enrugados, ou rugas endedadas. Não me excluo, mas tanto me espantou a prosperidade dos seios académicos, quanto a adicta senilidade do presumível espécime da raça humana. .
O António alarvejando-me coisas ao ouvido:
- Mais que papável, não?
- Começa na ponta dos cabelos e terminava no último dedo do pé, toda.
O aviso sonoro do metro pontapeou-nos da carruagem, as pernas de flamingo exguiavam-se por entre a hora de ponta e o seu amigo mais desinteressante que ele talvez, e ele talvez, saido da estação, batesse as mãos e fosse para casa a voar, casa que quase instintivamente lhe excluí pela aparência. Quem voa viverá, talvez como escreve, onde quer. Não lhe fará falta, assim sinceramente o espero.  

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