sábado, 23 de junho de 2012

A vigésima - o regresso

Assim que cheguei à estação, ainda as rodas da mala rodavam já sem a ajuda da minha mão, passa uma senhora, cigana por causa das socas penduradas as duas numa só mão da qual necessitou apenas de dois dedos que batiam os segundos uma na outra a dizer que o tempo passa, embora, de resto, tudo signifique que o tempo passa, eu apesar de ter um relógio no pulso só me apercebi com as socas a baloiçarem nos dedos e se caíssem diria que o tempo acabou, di-lo-ia sobretudo ela.
Espero pela pressa atrasado do meu tio, corro os santos todos da montra: quinze nossas senhoras para uma só mãe de Jesus, e eu que queria tanto ter outra que já perdi a minha, talvez mereça mais afinal é Jesus o filho de Deus e eu sou só eu. A base das figuras reproduzia o nome do respectivo bem-aventurado e de quem era padroeiro. S.Marçal dos bombeiros é o que me lembro. E o meu tio já de bagageira aberta, vi-lhe um cigarro ao canto apesar de já não fumar, sempre apressado e parecendo-o ainda mais derivado da hérnia.
Chegado a casa já o meu irmão se via a contas com as impingidelas das senhoras para a festa de mais uma nossa senhora, percebi que a expressão"são mais que as mães" radica na ascendência materna de Jesus Cristo e que dizer nossa senhora como nosso senhor repugna com a força da infidelidade.
A sensibilidade do meu irmão permitiu-lhe um
-já ai vens
sólido como as pedras que pisava, senti uma pedra a bater-me na cabeça. A ladradura dos cães pareci reprovar-lhe o cumprimento ou talvez só a saudade de mim, uma saudade desinteressada sem circunlóquios apenas aquilo
- estás aqui e por isso ladro
A senhora da frente faz pão e levanta-se à hora que me deito. Quando acordar lá estará o pão oferecido como obrigação de vizinhança a dizer que deu por mim ontem ainda acordado àquelas horas e a repeti-lo no estomago até que os sucos gástrico e os movimentos peristálticos tornassem ininteligivel a sua voz e me permitissem dormir.
As senhoras do peditório disseram que estava diferente, o cabelo, os óculos, o relógio no pulso. O vento com mãos de segurança a dizer que a porta da rua é a serventia da casa. O velho sicófago junto da árvore olhava e dizia um
-ora seja bem aparecido senhor doutor, não há quem o veja
cumprimentador mas ainda assim expulsivo,
-se quiseres figos come
como quem diz dou-tos mas não me chateis.
Mais à frente, naquilo que se compreendia a soleira de uma porta numa ruina, outro velho este a cuspilhar para a areia que amassava com um pauzito como quem prepara a terra em que se enterrará, nem quis repara em mim.
Tudo a aboar-se de mim, tudo dito num sotaque que ele próprio dizia
- na te quero aqui
Fui-me embora asseteado pela chuva, assoberbado pela rudez das coisas, um exército de pessoas e coisas e sentimentos articulados a fecharem-me a porta daquela terra com mãos e pés e ombros, e os cães atrás da multidão sentados lado a lado a dizer que quando regressa-se continuariam a ladrar.

Sem comentários:

Enviar um comentário