sexta-feira, 22 de junho de 2012

A décima nona - a arma de Carlos

Hoje Carlos levou uma arma escondida no casaco. Só a sabia esconder como outro objecto qualquer, e nem era paneleiro, era só dum tempo e de um hemisfério em que as crianças aprenderam desde cedo a jogar à escondidas, as espicaçar as reprimendas e a experimentar os castigos das mães quando se eclipsava da decoração da sala um qualquer bibelot. O Carlos que pintara um bigode de Hitler ao espelho e que enterrou de susto a cabeça junto ao peito e os braços e as pernas e mais membros houvesse a estorvar-lhe o rosto. O Carlos que esgotara o whisky da garrafeira no dia em que havia previsto pedir a mão de Sofia, mão que regurgitara numa papa de amarelos fétidos e sobre a qual aterra a face que naquela noite tremera a ultima vez no estrondo quase sísmico com que Sofia fechara a porta pela qual nunca mais entrara. Naquele dia Carlos levou uma arma escondida. Naquele dia não havia dia, a história passa-se a preto e branco, as últimas cores de que há memória são as do amarelo emético do whisky mal diliuido no almoço. Com Sofia saíram as cores, as últimas que viu foi já com a cabeça no chão pela greta da porta.
(Eu próprio não sei de que terá ele coragem com aquela arma, com aquela bebedeira que luta pela vida do seu corpo prendendo os músculos, sedando as memórias.)
Às 23h55m, esboçou os primeiros movimentos, como se o prototipo de Deus a verificar as ferramentas do corpo, estica uma perna ali, roda um pulso, as cervicais do pescoço, um trambolhão no vomitado quando suspende um pé a tentar o equilíbrio. Na televisão riem-se dois homens,
-palhaços
E uma garrafa voa sobrevoando o sofá até estalar no ecrã
-riam-se agora cabrões, palhaços de merda
Enquanto sai bate a meia noite, uma bebedeira de meia noite, a bater mais que doze vezes na paciência da casa que suspira de alivio quando a maçaneta roda e pergunta aos homens da televisão se se encontram de saúde.  
No Teixeira comenta-se o casal,
-como é que aquele pedaço do céu se mete com aquele atado
-aposto que nem tem picha para ela
Enquanto isso, ele já no carro que ziguezagueava na estrada com os sinais de que se nota somente a intermitência a avisar que uma estrada porque carros nem vê-los. Enquanto conduzia com a ponta do nariz esburraçada no para-brisas, um bando memórias encapuçadas e armadas até aos dentes verificavam a artilharia. No banco de trás uma que lhe apontava à nuca disparara, por sorte que uma curva dada com rangeres de pneus os desviou para o tejadilho.
Encontrou-a num banco. Ela obedeceu-lhe e levantou-se. As memórias perfilaram-se em posição de tiro sobre a calçada, do outro lado as cores desferiam pinceladas num rubor de chacina, e um verde que atinge uma lembrança de uma menina que passava todos os dias no corredor da escola a olhar discretamente para que as amigas não reparassem que se dirigia ao rapaz tímido que encostava o ombro à parede e virava os olhos. A lembrança vira-se contra o seu general, ambos a travarem-se de razões até que de arma apontada à cabeça o obriga a dar vagarosos e coagidos passos até à boca de Sofia que lhe sente a arma no bolso de dentro do casaco. Não sei o que pensou Sofia, creio que Carlos não se matou, nem creio ter morto ninguém.  E como foi um escritor que me contou a história não sei se tão-pouco se tratava de uma arma se uma metáfora para significar uma morte de amores, um arco e flecha de cupido.  

      

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