sábado, 22 de setembro de 2012

A vigésima quinta - A agente imobiliária


Andei à procura de casa em Lisboa e não está fácil. Não esperava facilidade com três ou quatro tostões disponíveis para telhas. Até que a agente imobiliária pareceu fazer tudo um mar de rosas. Lisboa desbarretava-se de súbito em portas abertas para soalhos magníficos, vidros duplos, banheiras de hidromassagem, um senão aqui e acolá entre quartos interiores e vistas de tapar as janelas com pinturas, mas tudo por tuta-e-meia. O que eu gostava que ali estivesse o meu avô para lhe gabar a decisão
-Você é uma mulher decidida
Como as casas todos temos um senão. Um dos quais é este de consciente ou inconscientemente redigirmos o passado de cada um assim que o conhecemos. Sentenciei mudamente: prostituta. Pensei-o silabicamente. Aquela tatuagem a eriçar-se do monte de vénus (que nome estúpido) pelo ventre não deixava margem para dúvidas. Deu-me boleia no carro. Tive de afastar os saltos que tinha de reserva para os bancos de trás
-Gosto de andar de saltos, mas com este trabalho sempre de um lado para o outro, subir e descer escadas, não dão muito jeito
E eu de caneta e bloco de notas na mão
-Pois, pois…trabalho de um lado para o outro…subir e descer escadas
Se investigasse o porta-luvas aposto que até o cinto de ligas, meias de rede, langerie fininha à justa medida do que mais cumpre tapar, um baú de lascívias, enfim. Não que me parecesse usa-los, pelo menos com esse escopo mercantil. Mas apenas como passado recente ainda por arrumar. E quem não tem um passado recente ainda no porta-luvas por arrumar?
No fim entreguei-lhe o bloco
Confere?
Olhou o trânsito pelo vidro
- A estas horas não se pode

A vigésima quarta - O sacro marketing


A tabuleta no último edifício da nacional trezentos e cinquenta anuncia: “Centro de Espiritualidade Francisco e Jacinta Marto, silenciosos operários da cruz”. Não sei se por ser ao sábado se das horas mas pareceram-me os torniquetes desafogados. Parecem-me também que a taciturnidade tem explicação mais prática que a que deriva da abstenção voluntária da tagarelice: ora bem se sabe que uma carpintaria com martelos de sol a sol a combater a teimosia dos pregos, serras, berbequins e por ai fora não é o local mais propenso a cavaqueira. Fiquei a pensar, porém, que a família de Nazaré fez escola no ramo da carpintaria e aí ergueu um verdadeiro império para que proporia: “Carpintarias Cristo, a pregar o mundo desde 0 a.C.” ou “Móveis Jesus Lda.: se os seus móveis são uma cruz, a solução são os móveis jesus!” este mais ao jeito das televendas.      
Impele-me a seriedade que repugne o slogan. Silenciosos operários da cruz repugna, caramba! É requintada e vexatoriamente subjugador. Decerto que a empresa mudou de gerência e que Jesus não assegurou o mesmo estilo à cabeça da empresa. No tempo em que ele mandava decerto que não havia esse chicote nos costados a cada palavra como imagino existir. Sempre me pareceu um bom vivant que gostava de por a conversa em dia nas ruas da galileia e da Judeia de jantares com os amigos.  Não sei quem mandava lá na carpintaria, bem que a última palavra seria de José de quem não se conhece tanto as virtuosidades, mas Jesus também teria uma palavra a dizer nas reuniões da administração. Se calhar é isso, a empresa mudou de gerência, foi trespassada que depois de Jesus Cristo se tornar estrela e protagonista de bestsellers não necessitavam dela para nada. Mudou e essa família Marto que está agora à frente já se viu que não é de dar abébias: amigos, amigos negócios à parte. Instituiu um modelo mais Auschwitziano: o trabalho liberta. Bem, com estes não se safam os sindicalistas e quanto a nós apreciadores de boas mobílias seja ou não dia de greve sempre podemos contar com estes silenciosos operários da cruz que não devem fazer só cruzes deve ser marketing é como a Coca-Cola que tem o nome do que vende mais mas outros refrigerantes há para não enfastiar.    

A vigésima terceira - Os cigarros de mentol


É verdade não é literatura. Dantes era uma canseira sempre a mesma erva seca a dessorar os pulmões percorresse-mos as marcas que percorresse-mos agora um clic na bolinha do filtro e zás lá vamos nós para as florestas frescas dos sítios onde cresce menta que não me interessa saber onde já que agora no meu filtro. E o médico
- Algum vício? Álcool, tabaquito?
- Menta. Minto, tabaquito
-Pois é, isso é que não lhe faz bem nenhum
E ainda questionei
- e se for de menta
Na esperança que ainda não tivessem tempo de analisar a invenção do novo século. E depois já a divagação tonta das analogias: para quando os cigarros tutti-frutti, os de morango e ananás, os de bacalhau, se nos gelados também podem porque não no tabaco. De modo que lá vou eu clicando se uma miúda gira passa como quem diz
-olhem para mim que sou moderno a fumar cigarros de outra dimensão.