sábado, 22 de setembro de 2012

A vigésima quarta - O sacro marketing


A tabuleta no último edifício da nacional trezentos e cinquenta anuncia: “Centro de Espiritualidade Francisco e Jacinta Marto, silenciosos operários da cruz”. Não sei se por ser ao sábado se das horas mas pareceram-me os torniquetes desafogados. Parecem-me também que a taciturnidade tem explicação mais prática que a que deriva da abstenção voluntária da tagarelice: ora bem se sabe que uma carpintaria com martelos de sol a sol a combater a teimosia dos pregos, serras, berbequins e por ai fora não é o local mais propenso a cavaqueira. Fiquei a pensar, porém, que a família de Nazaré fez escola no ramo da carpintaria e aí ergueu um verdadeiro império para que proporia: “Carpintarias Cristo, a pregar o mundo desde 0 a.C.” ou “Móveis Jesus Lda.: se os seus móveis são uma cruz, a solução são os móveis jesus!” este mais ao jeito das televendas.      
Impele-me a seriedade que repugne o slogan. Silenciosos operários da cruz repugna, caramba! É requintada e vexatoriamente subjugador. Decerto que a empresa mudou de gerência e que Jesus não assegurou o mesmo estilo à cabeça da empresa. No tempo em que ele mandava decerto que não havia esse chicote nos costados a cada palavra como imagino existir. Sempre me pareceu um bom vivant que gostava de por a conversa em dia nas ruas da galileia e da Judeia de jantares com os amigos.  Não sei quem mandava lá na carpintaria, bem que a última palavra seria de José de quem não se conhece tanto as virtuosidades, mas Jesus também teria uma palavra a dizer nas reuniões da administração. Se calhar é isso, a empresa mudou de gerência, foi trespassada que depois de Jesus Cristo se tornar estrela e protagonista de bestsellers não necessitavam dela para nada. Mudou e essa família Marto que está agora à frente já se viu que não é de dar abébias: amigos, amigos negócios à parte. Instituiu um modelo mais Auschwitziano: o trabalho liberta. Bem, com estes não se safam os sindicalistas e quanto a nós apreciadores de boas mobílias seja ou não dia de greve sempre podemos contar com estes silenciosos operários da cruz que não devem fazer só cruzes deve ser marketing é como a Coca-Cola que tem o nome do que vende mais mas outros refrigerantes há para não enfastiar.    

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