A tabuleta no último edifício da
nacional trezentos e cinquenta anuncia: “Centro de Espiritualidade Francisco e
Jacinta Marto, silenciosos operários da cruz”. Não sei se por ser ao sábado se
das horas mas pareceram-me os torniquetes desafogados. Parecem-me também que a
taciturnidade tem explicação mais prática que a que deriva da abstenção
voluntária da tagarelice: ora bem se sabe que uma carpintaria com martelos de
sol a sol a combater a teimosia dos pregos, serras, berbequins e por ai fora
não é o local mais propenso a cavaqueira. Fiquei a pensar, porém, que a família
de Nazaré fez escola no ramo da carpintaria e aí ergueu um verdadeiro império
para que proporia: “Carpintarias Cristo, a pregar o mundo desde 0 a.C.” ou
“Móveis Jesus Lda.: se os seus móveis são uma cruz, a solução são os móveis
jesus!” este mais ao jeito das televendas.
Impele-me a seriedade que repugne
o slogan. Silenciosos operários da cruz repugna, caramba! É requintada e
vexatoriamente subjugador. Decerto que a empresa mudou de gerência e que Jesus
não assegurou o mesmo estilo à cabeça da empresa. No tempo em que ele mandava
decerto que não havia esse chicote nos costados a cada palavra como imagino
existir. Sempre me pareceu um bom vivant que gostava de por a conversa em dia
nas ruas da galileia e da Judeia de jantares com os amigos. Não sei quem mandava lá na carpintaria, bem
que a última palavra seria de José de quem não se conhece tanto as
virtuosidades, mas Jesus também teria uma palavra a dizer nas reuniões da
administração. Se calhar é isso, a empresa mudou de gerência, foi trespassada
que depois de Jesus Cristo se tornar estrela e protagonista de bestsellers não
necessitavam dela para nada. Mudou e essa família Marto que está agora à frente
já se viu que não é de dar abébias: amigos, amigos negócios à parte. Instituiu
um modelo mais Auschwitziano: o trabalho liberta. Bem, com estes não se safam
os sindicalistas e quanto a nós apreciadores de boas mobílias seja ou não dia
de greve sempre podemos contar com estes silenciosos operários da cruz que não
devem fazer só cruzes deve ser marketing é como a Coca-Cola que tem o nome do
que vende mais mas outros refrigerantes há para não enfastiar.
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