Andei à procura de casa em Lisboa e não está fácil. Não
esperava facilidade com três ou quatro tostões disponíveis para telhas. Até que
a agente imobiliária pareceu fazer tudo um mar de rosas. Lisboa desbarretava-se
de súbito em portas abertas para soalhos magníficos, vidros duplos, banheiras
de hidromassagem, um senão aqui e acolá entre quartos interiores e vistas de
tapar as janelas com pinturas, mas tudo por tuta-e-meia. O que eu gostava que
ali estivesse o meu avô para lhe gabar a decisão
-Você é uma mulher decidida
Como as casas todos temos um senão. Um dos quais é este de
consciente ou inconscientemente redigirmos o passado de cada um assim que o
conhecemos. Sentenciei mudamente: prostituta. Pensei-o silabicamente. Aquela
tatuagem a eriçar-se do monte de vénus (que nome estúpido) pelo ventre não
deixava margem para dúvidas. Deu-me boleia no carro. Tive de afastar os saltos
que tinha de reserva para os bancos de trás
-Gosto de andar de saltos, mas com este trabalho sempre de
um lado para o outro, subir e descer escadas, não dão muito jeito
E eu de caneta e bloco de notas na mão
-Pois, pois…trabalho de um lado para o outro…subir e descer
escadas
Se investigasse o porta-luvas aposto que até o cinto de
ligas, meias de rede, langerie fininha à justa medida do que mais cumpre tapar,
um baú de lascívias, enfim. Não que me parecesse usa-los, pelo menos com esse
escopo mercantil. Mas apenas como passado recente ainda por arrumar. E quem não
tem um passado recente ainda no porta-luvas por arrumar?
No fim entreguei-lhe o bloco
Confere?
Olhou o trânsito pelo vidro
- A estas horas não se pode
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