segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A oitava - da grandeza

Fechou o livro entalando nele o dedo. O mundo caira-lhe em cima. O pai morreu. A mãe morreu. O irmão dissera-lhe que nada valia a pena. Depois de quem lhe dera a noticia sair, serena e pacatamente abriu o livro e continuou a ler.

sábado, 24 de dezembro de 2011

a sétima - são horas de comer

O relógio de Ludovico rodava duas vezes por ano e anos houve que foram sempre nove horas a que horas fosse. Duas vezes, ora meses a fio sendo nove, ora outros tantos sendo dez. Dez ou nove consoante o mundo ajeitava os hemisférios para secar os Invernos ao sol.
Sabia as horas pelo estômago, sendo horas consoante o apetite. Divina a refeição, terrena a fome que a devora, irrelevante a multiplicação que de quatro terrenas vezes por três divinas vezes fazia que doze no pulso de qualquer outro menos descumpridor fossem os números pelos quais nemésicos, divinos os ponteiros apontassem a morte, espadas empunhadas por Deus junto ao pescoço, ponteiro suficiente o dos segundos apartando da terra e do céu nematóide a vida.
Ludovico cagando nisso tudo à proporção que exudiava às horas, avançando quando fosse fome destemido e de pescoço à mercê. Se lhe sobrassem mãos do banquete diria-mos que Deus se chamava Ludovico e media o tempo pelo apetite, e que aproximava a espada quando bem lhe aprouve-se e não quando certo numero de vezes rodassem os ponteiros no pulso de cada um. E parece compelir às dez Ludovico, pai de um filho precocemente falecido, como o são sempre os filhos, à presença no funeral de um vizinho já de uma idade que ninguém tem, de uma idade que não deixou nunca à mercê o pescoço. Deus estará talvez tão-mais saciado quanto mais famintos estão os que se lhe subordinam.
Ludovico é, enfim, a exepção, o que não tem fome, nem fome sacia. O que tem relógio, mas não tem horas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A sexta - da tua presença

Da tua presença, barulho, a altissonância só do nome que tens, solidão, e, por isso, que és, e por isso que dançamos, e não interessa que ainda só eu te abrace.Ou se calhar, parecendo-me a reciprocidade de membros, loucura. Talvez a loucura a articulação da solidão e esta o desmembramento da loucura.


Se estivesse sozinho reivindicava a presença de alguém, mas nunca o presentissimo, humanissimo aconchego da solidão me permitia o discernimento da necessidade de alguém para além de ninguém. bebemos vinho pelas mãos um do outro como sangue, que só sem espanto e reprovação - quando não crime - de Cristo se bebe. Unívocos em coro estridente dali expulsá-mos Deus, o nome da solidão da dona Ivone que como eu agora acompanhadissimamente solitária no já anacrónico terço aos pés da cama, consolando o incómodo da minha sala.


Se dá Deus nome à solidão de Ivone, o seu, que nome te darei eu se não o teu que por "L" se inicia e aí sempre se conclui o nome que não se pronuncia, e atente-se que loucura já se escreveu. Talvez mais que solidão ou loucura, de amor mais um caso que em casa sozinho enlouquecia na já solitária garrafa de vinho.


Como insano, no esclarecimento da convalescença me perdoem pela lamechice incomoda das rimas

sábado, 15 de outubro de 2011

A quinta - teria sido tudo tão diferente

Mal se houve, assim se pressupoe a estridência dum navio aqui numa terra de terra. Rumorejava um jornal a meação virado pelas mãos e pelo vento. As estradas, onde mais pedras desiqulibrando os reumáticos corpos a custo levados ao destino, muralhavam a aldeia. Horácio tinha esposa também ela reumática. Horácio tinha filhos ou talvez já não tivesse ou talvez quisesse acreditar que más noticias não conhecem obstáculo no macadame intragável nem tão-pouco padecerão de reumatismo. Horácio tinha um café onde optar por não ir como muitas vezes fazia para não esgotar os destinos. O tempo de Horácio sabia a espigas de lado na boca, e também na boca o rabo das pescadas fritas sobre a tolha virginalmente branca cobrindo da mesa o dano da raiva de Horácio. Lucas, hidrófobo, na janela reconchegado a troçar da chuva quando não estudando as pescadas. Lucas quase sempre composto á perna de Horácio quase sempre à espera de um retrato felinamente à socapa tirado. Só Lucas e de certo por seu idioma não se entender no café sabia do que ali se passava. Só Lucas acompanhava Horácio quando este escondia no soalho o barulho das botas e ia ver a sua horta. Não se ouvia rumor de grandes colheitas, mas não miasse Lucas. Horácio plantava ali historias, plantava ali o tempo, plantava ali a imaginação e dali Horácio esperava, e mais sabendo desde criança que o que ali se punha sempre dera em abundância para sustentar a família, proficuidade literária. Lucas experimentava as garras numa árvore da qual se assim noticiava a existência e na sombra da qual Horácio desatento das noticias fazia por escutar um navio. E um navio. E o ultramar desembarcando num cais imemorial. Como um cais também os braços de Ana Beatriz onde Horácio qual navio aportava e apertava. E talvez hoje dia de colheita. Abundância. Ana Beatriz rebentando do fundo da memória, tirando a toalha branca donde revelava imaculada a mesa. Ana Beatriz vigorosa pulando entre os buracos da estrada, não os desejando extintos. Se Ana Beatriz, não outra, de certo a certeza dos filhos, de certo Lucas composto entre os dois e não só ele talvez os três desejando um retrato, de certo o tempo soubesse aos lábios rosados de Ana Beatriz. E o navio sumia-se num teria sido tudo tão diferente com que Horácio termina a colheita.

A quarta - in memoriam

António, meu paneleiro, onde andas tu a embirrar com a necessidade dos mendigos que não suportavas, onde andas tu a criticar o enxovalho injustificado dos executivos, onde andas tu a desejar acidentes às irritantemente amarelissimas carreiras de Lisboa onde entravas sem pagar, onde andas tu a ser tu António?

Andarás tu a pagar pelo teu feitio? e tamanha a divida agora mendigando ironicamente duas ou três moedas para entregar ao diabo, talvez batendo-as com a palma sobre alguma infernal mesa e:


- Toma, filho da puta!


Continua a irritar-te António, talvez enfades a morte e eu volte a saber de ti.

A terceira - seria soberbo este outubro

Seria soberbo este outubro se chovesse. Mas Maria despediu-se de havianas no pé e no saco se vasculha-se não duvido que bronzeadores e toalhas. Fiquei em casa acromo engolido no sofá sorvendo as luminárias exepções de outubro, não poucas, outubro de outro hemisfério. Dia quinze, hoje. Dia de desacerto, nem praia com e como a Maria, nem passeio, nem arrebanhando às quinze como marcado no Marquês. "Apartidário, laico e pacifico" e ainda assim como móbil a recusa à obediência ao projecto politico que caldeia nos dias rubros de outubro. Seria soberbo se chovesse. Talvez no Marquês só ele proprio reinvidicando aos escultores o abrigo dum guarda-chuva, dispensando o leão que à força da natureza, bem o sabe ele, que poder algum nenhum préstimo. Porventura aquele 13 de janeiro um janeiro doutro hemisfério, mais quente e mais propenso a manifestações de poder. Aliás, não vejo sumptuosidade alguma nos servidores de sua magestade atrapalhados procurando mãos suficientes para paus, espadas, lanças, chapéus-de-chuva...Mas pronto, se não aproveitam a praia e os jardins não afeemos a iniciativa, mas também não desege-mos sol que chovendo me apetece mais a fome do sofá e a necessidade do estudo.

A Maria talvez não reclame a soberba a outubro, e eu talvez considere em homenagem a ela.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A segunda - andei à tua procura

Quando não sabia de mim a minha mãe gritava e não era louca. Era apenas a minha mãe à procura de mim ou da minha obediência que não raro se ensurdecia ignorando. E hoje ignorando-te no espaço gritei, como não se grita senão por filhos, habilitando na boca de Vargas no café o qualificativo de louco. E com razão, não me conhecendo filiação alguma Vargas nada mais podia senão desacreditar-me o juízo e punir-me pelo desassossego de tragédia que lhe havia causado. Não o censuro. E como tal ainda amigos, de uma amizade que já ouvira muitas vezes a minha mãe a gritar por mim, despedia-me:


- Adeus Vargas, vou a procura dela e não sei quando volto.


Emalei as memórias todas que tinha dela, amontoei no bolso um punhado de poemas e lá fui eu sentado na varanda.
Procurei-te em mim, mas eu próprio perdido de mim e assim de ti. Procurei-te em Botticelli, e eu lá Marte derrotado, guerrilhando apenas com o espaço que a imaginação nos ocupa. Procurei-te nos sítios onde te queria encontrar, e tu sempre me fugindo aos desejos. Qual bússola, do bolso entretecidos os poemas assim confundidos donde orientação esperava nada mais que bês, cês, dês, e letras de curvatura pior cercando-me no exasperante labirinto de cuja solução espero que tu e nunca minotauros ou criaturas de índole ou aparência tal.
Do maço, eterno companheiro de semelhantes viagens, já não saiam cigarros e a varanda um cinzeiro onde cinzas talvez nossas, ou sepultura da fénix que nunca morre como espero nós.


- Boas Vargas, como vai isso?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A primeira - será um dia normal

Não estarei presente no dia da tua morte. talvez os mais próximos reparem desse modo mais em mim. Mais que eu, mais forte a ausência de mim. Talvez nesse dia, nem saiba que dia é, que dia será. Triviais serão talvez os dias em que morre muita gente, talvez a excepcionalidade dos dias não se apure pela temperatura, senão tão-só pela ausência de morte. E assim se me serena a trivialidade dos dias será porque são mortais. Fico descansado no dia da tua morte. Será apenas um dia normal. Não sei se quero que vivas, porque enquanto viveres viverei atormentado com a possibilidade de morreres. E hoje eu especialmente agitado rastejando à imaginação a serenidade de um afago teu, quando os sinos não sei de onde. dobrando a excepcionalidade dos dias, coincidem com:


- Não apareceu


- Não lhe fica nada bem


- Ou se calhar faltou-lhe a coragem


E eu em casa ás quatro como disseram os sinos, já refeito de querer pensar em ti a gozar a normalidade dos dias mortais.