segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A última - Crónica explicativa da desilusão do perfeito

I-Antes da mente agitar a matéria


David. Está sempre aquém da guerra, para David nunca houve filisteu de seis côvados e um palmo. E se houvesse de quem seria o antebraço por que se mediram. David. Mais bela a obra de arte que a arte da guerra. Qualquer de ti não temas, enquanto guerrilheiro israelita, se dúbia a realidade, não temas que o mito matou Golias. Não temas que não há estátua dele a fazer-te sombra por mais alta que seja. Nem tão pouco temas a guerra. Estás sempre aquém da guerra. Mesmo que te moldassem o mármore a derrubar exércitos não farias mal a uma mosca. Manterias sempre a calma perfeita da obra de arte. A ti, filho do Deus vivo, não se te pode deixar de bradar a valentia. A ti, filho do Deus morto, se te sublima no pasmo imóvel de quem vê a perfeição e no pasmo vertiginoso se te admira o milagre pelo qual deste a teu pai a imortalidade que permanece famoso só por existires.
A ti, me confirma o óbice da possibilidade temporal, que não Miguel Ângelo, embora semelhante na perfeição pela qual deste a teu pai por existires, não sem dúvida de não seres a razão da existência na inversão irrespondivel da lógica reprodutora, a imortalidade senão apenas a satisfação plena da suficiência mortal. Não houve guerra, pela razão simples de entre nós a ausência de todo o preceito de ser, por inerência da condição da guerra: a paz. 
Belo dia se inaugura. Todo o tremelicar incorreto e tosco da natureza parece sobre ela um afago terno da sua causa. Se não com ele não houvera de despertar a mente, se eclipsaria a perfeição, mas no passo mesmo menos claro um intermédio desditoso do que ao homem se oferece. De modo que não reputo monstros à razão ou não fossem todos os pintores loucos. De modo que se espira-la a incoerência de seres perfeita e ao homem nada de perfeito se oferecer à vista, num sisal que mais próximo se abeira à medula. De modo que és bela pelo expediente lógico que o belo é tudo o que tem beleza num raciocínio passível de definir número. Goya, não será o sentimento que engendra monstros? Goya, antes de sentir a razão engendrou-ma perfeita. Antes de agilizar os sentidos a matéria não vibrava sensação de senão.   

II - Depois da mente agitar a matéria 

Depois que a mente se vicia, a pedra que se atira ao lago ondula ante os pés a réplica que nos comprova assim a duvidando, bem assim nos duvidando. Que eu sou lago que não merece essa réplica, mais retórico almejando eficácia, te imputo a perfeição só para que não converjamos, tudo para dizer que não, enfim. Menor dor daí. O lago ao que parece aquiescentemente  se foi considerando paradoxalmente ser vivo que não vive.
E quando a obra de arte vive, que fará ao autor se dele não gostar? E o segundo com que artilharia se haverá de guarnecer? 
Assim, o artista emala raivas, desilusões, inquietações, todo o belicismo em que o sentimento se converte, e a própria vida que não há-de o inimigo glorificar-se da presa de qualquer jeito. E as palavras como a pólvora equivoco de alquimistas, não elixir da vida mas peste que a invade. 
Se me recordo quem sai aos seus não degenera. A obra viva do artista haverá como ele de apreciar o belo. Não sendo belo o artista da obra perfeita  faria ele toda a espécie de cirurgia para poder permanecer adorando a obra bela que de si extraiu. Logo a vida reivindica a singularidade. Também que importa, o mais hábil do cirurgião não faria sem mazelas um transplante de cabeça, meter as miudezas que a grudam ao tronco do mesmo jeito, preservando-lhe o preceito que por não conheceres ou não apreciares repugnas. A obra de arte derivado ao material de que é feita nunca viverá, digam isso ao sonhador, digam isso perante ti cujo nome por óbvias razões omito que te envergonharia ser a obra de arte viva de um autor intraduzível na aparência. Mas olha que há teorias que depõem no sentido de que é belo o que provoca sensações independentemente da aparência. Também não corroboro, haveríamos de convergir.   

III - Conclusão

De modo que linha a linha se entretece de impossíveis o sisal. E obra que vive em luxuosos museus, o artista num ninho de ratos - e o sisal a apertar -, e a obra que veste bem, o artista um farrapo um buraco pegado -e o sisal a apertar, a apertar -, a obra numa geometria perfeita equilibradissima, o artista um desequilibrado que inventa vida no mármore - e o sisal, o autor a experimentar ao pescoço. E a corda, e a corda e a corda, ajusta, desajusta, mais um paradoxo aqui, um nó de imperfeições que se aperta mais conforme ao escopo, e a corda será que é aqui a vértebra, será mais à esquerda, talvez mais em cima, derivado da gravidade fica bem assim. 
O corda é a gravata do suicida que nessa condição por amor há obra, senão noutra solução de a ignorar no cilício constante da sua certeza ou destruí-la de tal forma que seja o seu pó a inversão de todo o sentimento, que seja amor o pó que lhe escorre dos dedos e não morte apesar de morte. 
Óbice superlativo o que decorre de que na obra viva ser sangue impassível de repor a tingir as mãos e não pó que sempre se poderia tratar de Fénix. 













  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A vigésima sexta - pobre exegeta

Que será do exegeta que sobre tal discurso houver de discursar: o senhor e o seu partido não têm credibilidade politica, andaram de pec em pec até se terem de ajoelhar perante os credores. Não tem dignidade politica, não tem honra politica, não tem sensibilidade politica, não tem humildade politica. O exegeta impregnado de Sócrates, Platão, Aristóteles, S. Tomás, S. Agostinho e dai por diante nunca houvera tropeçado em tanto catarpacio estudado  numa distinção de virtudes por tal critério: as virtudes politicas versus virtudes da alma. E se não erro no caso narrado nos dilucidará alternativamente: ou se há-de de considerar que tal discurso resulta de que no exercício daquela função não padece o destinatário da virtude predicada, o que implicaria a petitio principii de considerar desde logo que o politico exerce a sua função, por isso, dificilmente defensável;  ou se interpreta extensivamente o discurso não lhe cingindo a desvirtude à função e mais acertadamente se considerará de todo que é delas carente, e o difícil seria citar nomes de políticos envolvidos em casos judiciais, tão difícil seria...
- você é um animal politico senhor deputado 
e outro bem estudado de bibliografia aristotélica não se fica pedindo ebulido à mesa a defesa da honra
-tenha tento na língua senhor deputado. Devia saber que esta é a casa da democracia, não...não é a casa da sua tia, aí diz o que quer. Agora aqui, de si, como a todos nós, o que se exige é seriedade e elevação no debate politico e não ataques ad hominem que ferem de morte a democracia. 
E o exegeta no recato da sua poltrona
- epa que animais
Enquanto o retórico se fazia todo gravata em riste, prenhe de honra reposta 
- tenho-o dito senhora presidente
E o que me parece a mim? Bem, a mim parece-me apenas que os excelentíssimos visados levaram a peito  e à letra essa coisa da democracia representativa não pretendendo com o expediente retórico ultrapassar a bitola do bonus pater familias. De resto, assim bem como se ao Manel Jaquim o Tó da Burra lhe chamasse animal lavrador não haveria duvida: estava o arraial montado. 
O povo algum assoberbado na semana seguinte o Manel Jaquim deputado na assembleia do município. E como isto é sempre a subir, resta ao exegeta perguntar em que data e lugar lhe coube sobre o debate ajuizar, e bem assim os nomes dos respectivos intervenientes, doutos como seria de esperar de filhos de boas gentes. Até porque na aldeia no café central consta que uma palavra muito esquisita fez eclodir uma zaragata por pensar-se vil impropério em língua de outro Império.

      

sábado, 22 de setembro de 2012

A vigésima quinta - A agente imobiliária


Andei à procura de casa em Lisboa e não está fácil. Não esperava facilidade com três ou quatro tostões disponíveis para telhas. Até que a agente imobiliária pareceu fazer tudo um mar de rosas. Lisboa desbarretava-se de súbito em portas abertas para soalhos magníficos, vidros duplos, banheiras de hidromassagem, um senão aqui e acolá entre quartos interiores e vistas de tapar as janelas com pinturas, mas tudo por tuta-e-meia. O que eu gostava que ali estivesse o meu avô para lhe gabar a decisão
-Você é uma mulher decidida
Como as casas todos temos um senão. Um dos quais é este de consciente ou inconscientemente redigirmos o passado de cada um assim que o conhecemos. Sentenciei mudamente: prostituta. Pensei-o silabicamente. Aquela tatuagem a eriçar-se do monte de vénus (que nome estúpido) pelo ventre não deixava margem para dúvidas. Deu-me boleia no carro. Tive de afastar os saltos que tinha de reserva para os bancos de trás
-Gosto de andar de saltos, mas com este trabalho sempre de um lado para o outro, subir e descer escadas, não dão muito jeito
E eu de caneta e bloco de notas na mão
-Pois, pois…trabalho de um lado para o outro…subir e descer escadas
Se investigasse o porta-luvas aposto que até o cinto de ligas, meias de rede, langerie fininha à justa medida do que mais cumpre tapar, um baú de lascívias, enfim. Não que me parecesse usa-los, pelo menos com esse escopo mercantil. Mas apenas como passado recente ainda por arrumar. E quem não tem um passado recente ainda no porta-luvas por arrumar?
No fim entreguei-lhe o bloco
Confere?
Olhou o trânsito pelo vidro
- A estas horas não se pode

A vigésima quarta - O sacro marketing


A tabuleta no último edifício da nacional trezentos e cinquenta anuncia: “Centro de Espiritualidade Francisco e Jacinta Marto, silenciosos operários da cruz”. Não sei se por ser ao sábado se das horas mas pareceram-me os torniquetes desafogados. Parecem-me também que a taciturnidade tem explicação mais prática que a que deriva da abstenção voluntária da tagarelice: ora bem se sabe que uma carpintaria com martelos de sol a sol a combater a teimosia dos pregos, serras, berbequins e por ai fora não é o local mais propenso a cavaqueira. Fiquei a pensar, porém, que a família de Nazaré fez escola no ramo da carpintaria e aí ergueu um verdadeiro império para que proporia: “Carpintarias Cristo, a pregar o mundo desde 0 a.C.” ou “Móveis Jesus Lda.: se os seus móveis são uma cruz, a solução são os móveis jesus!” este mais ao jeito das televendas.      
Impele-me a seriedade que repugne o slogan. Silenciosos operários da cruz repugna, caramba! É requintada e vexatoriamente subjugador. Decerto que a empresa mudou de gerência e que Jesus não assegurou o mesmo estilo à cabeça da empresa. No tempo em que ele mandava decerto que não havia esse chicote nos costados a cada palavra como imagino existir. Sempre me pareceu um bom vivant que gostava de por a conversa em dia nas ruas da galileia e da Judeia de jantares com os amigos.  Não sei quem mandava lá na carpintaria, bem que a última palavra seria de José de quem não se conhece tanto as virtuosidades, mas Jesus também teria uma palavra a dizer nas reuniões da administração. Se calhar é isso, a empresa mudou de gerência, foi trespassada que depois de Jesus Cristo se tornar estrela e protagonista de bestsellers não necessitavam dela para nada. Mudou e essa família Marto que está agora à frente já se viu que não é de dar abébias: amigos, amigos negócios à parte. Instituiu um modelo mais Auschwitziano: o trabalho liberta. Bem, com estes não se safam os sindicalistas e quanto a nós apreciadores de boas mobílias seja ou não dia de greve sempre podemos contar com estes silenciosos operários da cruz que não devem fazer só cruzes deve ser marketing é como a Coca-Cola que tem o nome do que vende mais mas outros refrigerantes há para não enfastiar.    

A vigésima terceira - Os cigarros de mentol


É verdade não é literatura. Dantes era uma canseira sempre a mesma erva seca a dessorar os pulmões percorresse-mos as marcas que percorresse-mos agora um clic na bolinha do filtro e zás lá vamos nós para as florestas frescas dos sítios onde cresce menta que não me interessa saber onde já que agora no meu filtro. E o médico
- Algum vício? Álcool, tabaquito?
- Menta. Minto, tabaquito
-Pois é, isso é que não lhe faz bem nenhum
E ainda questionei
- e se for de menta
Na esperança que ainda não tivessem tempo de analisar a invenção do novo século. E depois já a divagação tonta das analogias: para quando os cigarros tutti-frutti, os de morango e ananás, os de bacalhau, se nos gelados também podem porque não no tabaco. De modo que lá vou eu clicando se uma miúda gira passa como quem diz
-olhem para mim que sou moderno a fumar cigarros de outra dimensão.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A vigésima segunda - passeio de merda

Quando tenho demasiado sono para dormir dá-me para andar por ai a pé. Rasguei o jardim do campo grande(fiquei ao fim de dois anos a saber onde era a junta de freguesia, fica entalada entre os edifícios da faculdade de ciências) e fiz a cidade universitária toda. Na faculdade de ciências é habitual um pavão escapar-se da cerca. Hoje atravessava civilmente (creio que se lhe pedissem o cartão de cidadão sacava-o das penas) a passadeira e assim que no jardim lá estava ele a bicar. E aquilo não pode ser tudo fome, devem fazer muitas as asneiras os pavões sempre a bater com a cabeça como muita gente faz quando ralha com a esposa ou quando falta a um exame, o pavão com remorsos
- porque é que fui fugir da cerca, porquê?porquê?
sem orgulho nenhum nisso de modo que que a cauda ficava recolhida. Passou um conhecido (que categoria intermédia é esta:conhecido) que não via faz dois ou três anos. Cumprimentei-o sem parar o passo, como reconhecendo que o não conhecia, com um aperto de mão como fazem os cavalheiros, os outros cruzam-se apenas sem necessidade de erguer membros e contrair músculos, ninguém disse que era fácil ser-se cavalheiro.   A torre do tombo, que se extraiu ao castelo, imperial a muralhar arquivos, não vão os drogados ali ao pé sacar do arco e atirar inflamadas flechas. Não me pareceram para aí virados. Um jogava a apanhada com um papelito que espiralava a mangar-lhe os reflexos e o outro a assistir numa paternidade de seringas e a olhar-me como quem diz
- sabe como são as crianças...
e era um drogado com idade de pai e acabadez de avô. Segui pela faculdade de letras com os seus curso já obsoletos para o estádio universitário. Os mais gordos e velhos parece-me que têm todos medo de morrer e por isso correm em sentido contrário numa espécie de passadeira rolante que dá para o inferno com as duas mãos no rabo já assado do aconchegante lar de Belzebu, que sabe receber, aquilo do paraíso é bonito mas de inverno deve ser fresco. E eu lá ia todo cigarros e pacatez de imortal, mas a reconhecer que a ter de correr que seja contra a morte. Já ouço o pac, pac, pac, dos courts, deve ser um desporto especialmente descompressivo o ténis, quando me chatear o estudo pac, pac, pac, com a capa e contra-capa. Há muitas estátuas ali. Todas tinham os pés maiores que o resto, nem perdi tempo a perceber porquê e talvez por isso se apresentassem descalças, dado que aquele tamanho me parece difícil conseguir-se. Um tinha uma bola de rugbi e uma expressão de 
-é minha e ninguém ma tira
e apesar de estátua e os incontornáveis handicaps que em termos de velocidade isso importa, consenti que dificilmente lha tiravam.
Desci, esbaforido, umas escadas, essa infernal invenção, onde no corrimão um pombo que bateu as asas e num estalar de dedos colocou-se no destino. É este o preço de se ter um cérebro que faz duas vezes um pombo, e o pombo ralado
-enquanto tu fazes equações quadráticas e de não sei quantos graus eu num bater de asas vejo Lisboa inteira
somos carregadores de cérebros e eu quero lá saber de raciocínios, eu quero é voar e isto de pensar tem-me dado mais problemas que outra coisa. E depois podia cagar lá do alto em cima de um inteligentissimo bípede que resolve equações de não sei quantos graus mas que leva com merda de um bicho que tem o cérebro do tamanho de uma unha, que delicia, sublime arrogância columbina. Cagar para alguém em sentido figurado já faz tanto pelo meu ego, imaginem se fosse merda a sério!
Chega talvez de imundo assunto intestinal e como as conversas de merda me desmotivam termino aqui o relato do passeio que não tinha outro propósito senão o de descobrir o caminho mais perto para sítio nenhum, malograda tentativa, vil ditadura a do verbo estar.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A vigésima primeira - o sapato de pano

Fui ao lar ver o meu avô, encontrei-o de saúde apesar de agasalhado num dia de quarenta graus. Lar que nem em sentido figurado, significando casa de família, reproduz nada daquilo. Lar é uma espécie de meio caminho entre casa e hospital ou pior entre casa e morte. Uma espécie de purgatório. Mas como purificar almas ali, suponho que se as senhoras não os limpassem zelosamente em preceitos de coisas, era fétido o cheiro, seriam infernais os devaneios a decrepitude de sanatório.
O que comeu hoje o que não comeu, não está calor para essa camisola, e uma senhora  a tentar na poltrona intermitente por detrás da cadeira do meu avô calçar os sapatos de pano, elásticos mas ainda assim teimosos, escapadiços. Como vão os estudos, como não vão, quando partes, quando regressas, está calor não está, e a senhora a reiterar os sapatos.
A senhora de unhas gladiformes tentando coloca-las como alavanca entre o sapato e o tornozelo numa de tentativa-e-erro. E eu já amedrontado sobre o modo de descrever aqueles movimentos: numa folha, numa de tentativa-e-erro, calça não calça, cai, apanha, volta a cair, escrevo, risco, volto a escrever, volto a riscar. Permaneceu descalça, como a minha a folha pior que branca com letras imperceptíveis sob os gatafunhos como grades de celas. À senhora acorreram três empregadas do lar, tantas como só no futebol acontece quando alguém se lesiona. Demoram para o sucesso um tempo que não quis cronometrar, não mais que quinze ou vinte segundos menos que os que ela perdera só a convencer a flexibilidade dos rins.  A mim ninguém me veio ajudar como equipa médica de futebol aplicando aquele spray na imaginação, forçando o entorpecimento das metáforas, as câimbras da sintaxe, nada. Tive inveja de não conseguir calçar um sapato.
Um livro o sapato de pano que nunca conseguirei calçar.

     

sábado, 23 de junho de 2012

A vigésima - o regresso

Assim que cheguei à estação, ainda as rodas da mala rodavam já sem a ajuda da minha mão, passa uma senhora, cigana por causa das socas penduradas as duas numa só mão da qual necessitou apenas de dois dedos que batiam os segundos uma na outra a dizer que o tempo passa, embora, de resto, tudo signifique que o tempo passa, eu apesar de ter um relógio no pulso só me apercebi com as socas a baloiçarem nos dedos e se caíssem diria que o tempo acabou, di-lo-ia sobretudo ela.
Espero pela pressa atrasado do meu tio, corro os santos todos da montra: quinze nossas senhoras para uma só mãe de Jesus, e eu que queria tanto ter outra que já perdi a minha, talvez mereça mais afinal é Jesus o filho de Deus e eu sou só eu. A base das figuras reproduzia o nome do respectivo bem-aventurado e de quem era padroeiro. S.Marçal dos bombeiros é o que me lembro. E o meu tio já de bagageira aberta, vi-lhe um cigarro ao canto apesar de já não fumar, sempre apressado e parecendo-o ainda mais derivado da hérnia.
Chegado a casa já o meu irmão se via a contas com as impingidelas das senhoras para a festa de mais uma nossa senhora, percebi que a expressão"são mais que as mães" radica na ascendência materna de Jesus Cristo e que dizer nossa senhora como nosso senhor repugna com a força da infidelidade.
A sensibilidade do meu irmão permitiu-lhe um
-já ai vens
sólido como as pedras que pisava, senti uma pedra a bater-me na cabeça. A ladradura dos cães pareci reprovar-lhe o cumprimento ou talvez só a saudade de mim, uma saudade desinteressada sem circunlóquios apenas aquilo
- estás aqui e por isso ladro
A senhora da frente faz pão e levanta-se à hora que me deito. Quando acordar lá estará o pão oferecido como obrigação de vizinhança a dizer que deu por mim ontem ainda acordado àquelas horas e a repeti-lo no estomago até que os sucos gástrico e os movimentos peristálticos tornassem ininteligivel a sua voz e me permitissem dormir.
As senhoras do peditório disseram que estava diferente, o cabelo, os óculos, o relógio no pulso. O vento com mãos de segurança a dizer que a porta da rua é a serventia da casa. O velho sicófago junto da árvore olhava e dizia um
-ora seja bem aparecido senhor doutor, não há quem o veja
cumprimentador mas ainda assim expulsivo,
-se quiseres figos come
como quem diz dou-tos mas não me chateis.
Mais à frente, naquilo que se compreendia a soleira de uma porta numa ruina, outro velho este a cuspilhar para a areia que amassava com um pauzito como quem prepara a terra em que se enterrará, nem quis repara em mim.
Tudo a aboar-se de mim, tudo dito num sotaque que ele próprio dizia
- na te quero aqui
Fui-me embora asseteado pela chuva, assoberbado pela rudez das coisas, um exército de pessoas e coisas e sentimentos articulados a fecharem-me a porta daquela terra com mãos e pés e ombros, e os cães atrás da multidão sentados lado a lado a dizer que quando regressa-se continuariam a ladrar.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A décima nona - a arma de Carlos

Hoje Carlos levou uma arma escondida no casaco. Só a sabia esconder como outro objecto qualquer, e nem era paneleiro, era só dum tempo e de um hemisfério em que as crianças aprenderam desde cedo a jogar à escondidas, as espicaçar as reprimendas e a experimentar os castigos das mães quando se eclipsava da decoração da sala um qualquer bibelot. O Carlos que pintara um bigode de Hitler ao espelho e que enterrou de susto a cabeça junto ao peito e os braços e as pernas e mais membros houvesse a estorvar-lhe o rosto. O Carlos que esgotara o whisky da garrafeira no dia em que havia previsto pedir a mão de Sofia, mão que regurgitara numa papa de amarelos fétidos e sobre a qual aterra a face que naquela noite tremera a ultima vez no estrondo quase sísmico com que Sofia fechara a porta pela qual nunca mais entrara. Naquele dia Carlos levou uma arma escondida. Naquele dia não havia dia, a história passa-se a preto e branco, as últimas cores de que há memória são as do amarelo emético do whisky mal diliuido no almoço. Com Sofia saíram as cores, as últimas que viu foi já com a cabeça no chão pela greta da porta.
(Eu próprio não sei de que terá ele coragem com aquela arma, com aquela bebedeira que luta pela vida do seu corpo prendendo os músculos, sedando as memórias.)
Às 23h55m, esboçou os primeiros movimentos, como se o prototipo de Deus a verificar as ferramentas do corpo, estica uma perna ali, roda um pulso, as cervicais do pescoço, um trambolhão no vomitado quando suspende um pé a tentar o equilíbrio. Na televisão riem-se dois homens,
-palhaços
E uma garrafa voa sobrevoando o sofá até estalar no ecrã
-riam-se agora cabrões, palhaços de merda
Enquanto sai bate a meia noite, uma bebedeira de meia noite, a bater mais que doze vezes na paciência da casa que suspira de alivio quando a maçaneta roda e pergunta aos homens da televisão se se encontram de saúde.  
No Teixeira comenta-se o casal,
-como é que aquele pedaço do céu se mete com aquele atado
-aposto que nem tem picha para ela
Enquanto isso, ele já no carro que ziguezagueava na estrada com os sinais de que se nota somente a intermitência a avisar que uma estrada porque carros nem vê-los. Enquanto conduzia com a ponta do nariz esburraçada no para-brisas, um bando memórias encapuçadas e armadas até aos dentes verificavam a artilharia. No banco de trás uma que lhe apontava à nuca disparara, por sorte que uma curva dada com rangeres de pneus os desviou para o tejadilho.
Encontrou-a num banco. Ela obedeceu-lhe e levantou-se. As memórias perfilaram-se em posição de tiro sobre a calçada, do outro lado as cores desferiam pinceladas num rubor de chacina, e um verde que atinge uma lembrança de uma menina que passava todos os dias no corredor da escola a olhar discretamente para que as amigas não reparassem que se dirigia ao rapaz tímido que encostava o ombro à parede e virava os olhos. A lembrança vira-se contra o seu general, ambos a travarem-se de razões até que de arma apontada à cabeça o obriga a dar vagarosos e coagidos passos até à boca de Sofia que lhe sente a arma no bolso de dentro do casaco. Não sei o que pensou Sofia, creio que Carlos não se matou, nem creio ter morto ninguém.  E como foi um escritor que me contou a história não sei se tão-pouco se tratava de uma arma se uma metáfora para significar uma morte de amores, um arco e flecha de cupido.  

      

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A décima oitava - o presumivelmente humano

Hoje fui passear com o meu amigo António, um anda daí que não pude denegar-lhe. No metro havia aquilo que presumi um homem, ilidível presunção em todo caso: umas botas que excediam largamente o comprimento dos pés, a boca que a falta de dentes encostava ainda mais à nuca, uma cabeça de tartaruga a sair dos ombros de cabide. O nariz rebentava viçosamente da testa grande ou mais derivado da boca ficar muito atrás. Levantaram aquela cabeça duas pernitas de flamingo cuja exiguidade denunciavam umas calças justas até ao tornozelo aí se centrifugando ante as botas numa largura incorrecta. O António descreveu-o melhor que eu: "chupado" parando dolosamente no "chu", "chu-pado". Desinteressei-me do que falavam ele e o amigo de que reparei um relógio de visor assente nas veias. O António mirava o desabrigo das intumescências femininas e bradava ao verão. Não me excluo da pouca vergonha como uma senhorita classificou o olhar declarado de António entre os dedos enrugados, ou rugas endedadas. Não me excluo, mas tanto me espantou a prosperidade dos seios académicos, quanto a adicta senilidade do presumível espécime da raça humana. .
O António alarvejando-me coisas ao ouvido:
- Mais que papável, não?
- Começa na ponta dos cabelos e terminava no último dedo do pé, toda.
O aviso sonoro do metro pontapeou-nos da carruagem, as pernas de flamingo exguiavam-se por entre a hora de ponta e o seu amigo mais desinteressante que ele talvez, e ele talvez, saido da estação, batesse as mãos e fosse para casa a voar, casa que quase instintivamente lhe excluí pela aparência. Quem voa viverá, talvez como escreve, onde quer. Não lhe fará falta, assim sinceramente o espero.  

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A décima sétima - Penso-te logo existo

Penso-te logo existo, existo naquele caminho por onde te levei a casa cada vez que o reitero aquele caminho é a via sacra onde passo sem ser preciso ser pascoa ou sendo preciso ser pascoa todos os dias. Os aviões que não cabem inteiros  no céu que o teté a  teté dos prédios deixa ver parecem subordinar a cidade à sua sonora admiração tão sonoro quanto eu queria ser para te subordinar a atenção tão alto donde te queria ver ciumento entalada entre os prédios que deixam o jogo do quem ri primeiro para te olhar e atirar piropos num betão porcamente falado. Enquanto os livros fumam passivamente na secretária existo vagamente quando te penso ora menos vestida, ora nua e mais que nua e eis que tosse um livro do tabaco ou talvez da vergonha de tanta nudez e logo deixo de existir plasmando os olhos nas páginas que vão descorando do encarnado pejado para o amarelo amorfo do tabaco. E existo em sítios estúpidos nos quais terias vergonha de ser pensada se possível fosse saber-se se se é pensado. O Benfica menos acertivo e maçador no meio-campo basta, e lá vou eu solucionando o ciclo pirrónico com o penso-te logo existo. E eis que sem mais mal-amado Cardozo atira do meio da rua calando os adeptos que urrando e fazendo estilhaçar garrafas no chão me fazem perder-te na multidão de vozes que ingloriamente afasto com as mãos onde se vão enleanando e apropriando-se de mim que me vejo já agitando o cachecol.
Duvidoso método de existir este (ou de existir-te), mas diria racionalmente Descartes que "não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis"  e eu irracionalmente vou-te resolvendo enquanto pensar discursando o método à sanidade que se vai convencendo de que existes, enquanto o discurso não mude para o penso-te logo desisto.



sábado, 5 de maio de 2012

A décima sexta - cego como os que vêem

Tenho dezassete minutos para escrever esta crónica. Se me deito às seis quando as nuvens que creio feitas de todo o meu tabaco permitem que o sol desancore do sono as almas inavegáveis  dos que pegam às nove, é porque o dia desinteressa a quem pegar significa despegar. E a esses como a mim o dia gruda às coisas ao que são, e o que sobra saber é o que não são. E cada vez se sabe menos porque se vê demais, porque à noite quando apenas a pupilar excepção dos olhares felinos descobria a existência nocturna das coisas, e decerto porque a esses pouco lhes interessa o que não são, se alumia com candeeiros furtivos alvejando a inexistência como se imagina adejando contra o fumo das nuvens que condenso fazendo essaoutra existência precipitar sobre mim que repassado de distorções torço na almofada as insónias e ancoro no sonho, a vida possível no sono. E os outros de manhã lá vão felinos sobre as portas alarmantes dos transportes, enquanto eu humanamente vou cegando as insónias que palpam vagamente o sossego.   

sábado, 7 de abril de 2012

A décima quinta - ecraver com'ás pessoas

Não se pode dizer de Alfredo que seja um versado em literatura, o exame da quarta classe onde concluíra os estudos servira-lhe de pouco, e o que sabia era de cor.
- Atão e ercraver com'ás pessoas ó Zé?
Não me parecia que "quando deixares de ser um iliterado de merda", fosse resposta a dar.
-Ainda tenho que aprender muito - e no fim distingui-o com um "senhor", "ainda tenho que aprender muito... sr. Alfredo"
E eu erguendo palavras a custo com as gruas da imaginação para que Alfredo não sei como, e se calhar, não dizendo mais que a verdade. Eu impregnando cada palavra com o que escorre das memórias que a custo torço, para que ele sugira que escreva como as pessoas. Escreverei como gente, quando Alfredo ler como gente e a resposta "quando ler como as pessoas", "quando ler como as pessoas...sr.Alferedo".
Sem que o não suspeita-se, antecipou-se:
-Na sei su conhecias ó não, mas olha, este é puto mai novo, abalaste da terra, mas é pa veres que aqui tamem se trabalha. Foi ele que desencantou lá da maquineta uns rabiscos que tinhum o nome, lá alguém le disse na escola que eras destas bandas e ele amostrou-me...
-Tá certo, sr.Alfredo, é esperto o raio do puto
E não sabia o que lhe dizer. Dire-lhe-ia para não escutar o pai e para aprender a saber ler e que para isso necessitava de encher ele próprio as palavras com as suas memórias, e com os seus problemas, e com as suas idiossincrasias, e com os ralhetes do seu pai. Mas nada disto me sugeria a infante puerilidade de André. Apeteceu-me dar-lhe uma palavra, como se um balão que ele enchia e soltava no ar para que lá no alto admira-se e sonhasse. Adverti-o, porém, para a crescente importância da matemática e para que a não esquece-se, com o que creio ter dado razão a Alferedo.
-Olha o qu'ele te tá dezer, que este é dos bons que a gente cá tem. Olha pó qu'ele diz, na olhes pó qu'ele escreve.
E lá foram, a criança pulando e só não se sumindo no céu como uma palavra, porque o pai lhe agarrava firme a mão.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A décima quarta - do avesso sou mais que o mundo

Quando se dimensiona perante mim imenso o mundo vergado sobre ele, por mais irrisório que ali me perfile, penso sempre que virado do avesso nunca mais que ferro e níquel enquanto que eu se assim também me revira-se nele não caberia. Exércitos de cogitações guerrilhando a ordem das coisas, pessoas feitas sem coito como assim o foram Anselmo, Zé, Ana Beatriz, Vargas, Ludovico e outros de que não têm relato (talvez o sexo da literatura seja a imaginação), árvores com letras penduradas nas curvas das quais pilotos de automóveis experimetando a potência da imaginação, e os automóveis mais lentos que os mulos cortando a meta numa reiteração constante de nova partida, um navio encalhando numa vírgula que lhe compassa o destino e exasperada a tripulação ebulindo num ponto de exclamação em que a frase se termina sem que mais noticias. Pessoas que chovem de baixo para cima e nem sequer se tratam de exumações, mas chuva que cai da litosfera para atmosfera, aí onde, em morrendo alguém, como só acontece quando quero, se abre sepultura, ou não fossem as pessoas para o céu quando morrem. Um colibri derrubando um elefante de cujas entranhas se alimenta ele e respectiva família. Livros que abrem e fecham com fome sem nada no estômago, de vez em quando meio necrófagos meio canibais ruminando restos de outros livros e assim se escrevendo, uma menina pobre aqui, um menino rico ali, acolá já decomposta uma família oitocentista que não aprova o namoro, mais além um dilema intragável que se come porque os legumes apesar de tudo fazem bem. E tu, sabes bem, quem te evita é a epiderme contra à qual te atiras e nela se te molda de vez em quando um cotovelo, ou a ponta do nariz, ou quando tenho sorte um mamilozito, por isso, se me virar do avesso sabes que seremos felizes, só o pormenor da tua inexistência o tem protelado.
Só não me mete medo essa grandeza desmedida do mundo porque do avesso a medida sou eu que a faço e se é grande é porque alguém assim o considera. E se necessário for, sento num monte de ferro ou níquel um palhaço e meto-me na lua a assistir troçando.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A décima segunda - os pássaros metáforas

Em tempos idos, não como agora, os pássaros enquanto pertencentes à categoria das aves, não metáforas adejando; os adjectivos, não raro cores ou bonito e feio ou bom e mau, senão sempre; as pessoas, coleguitas de escola outros a quem previligiava como amigos, vizinhos, professores e professoras, motoristas do autocarro, familiares e demais proximidades, não Anselmo a quem chamo e ele ensurdecido ruminando ininterruptamente os mexericos ou Ludovico que creio viver-me no pulso, ninguém vive no pulso de outra pessoa quanto muito um relógio, mas é Ludovico, nem tão-pouco Horácio esse alienado de merda que semeia imaginação e houve barcos onde os não há como só eu o vendo a ele, creio que também só ele é que me consegue ver. A escrita talvez subsistindo como necessidade, razão as ordens da professora outrora, hoje, quando o vagar consome o dever e o medo da inutilidade ameaça a consciência.
Em tempos idos, não como agora, sempre agora, não havia ido ainda tempo algum. E agora cada segundo parece contar a sério, não só o sol a pôr-se que irremediava a brincadeira para o dia seguinte. Agora a cada segundo desmaterializo-me numa sucessão de memórias interminável e inatalhável, mais parecendo sempre uma memória a todo o tempo do que fui ou do que serei. O tio patinhas que fora crucial na sua ganância, cede a listas da Forbes ou noticias de multimilionários concertando posições sobre o aumento dos impostos nos EUA; o Dartacão e o genérico que sorvi irreprimivelmente na memória, hoje quando não o contenho no silencio cada vez mais inadequado, e a Julieta seu amor outrora insubsumivel agora o conceito abstracto ao qual inevitavelmente te reconduzo. O Son Goku, cuja correcção do nome nem confirmo, sempre valente, sempre forte, parecendo-me tão importante quanto César Augusto, Carlos Magno, Napoleão, o nosso Afonso Henriques, duma importância tal que não tenho a certeza se não ignorava os nomes destes últimos, talvez o nosso primeiro rei fosse bem lembrado na escola, pese embora no recreio reinasse nas conversas Son Goku e os restantes personagens. No recreio eu era o Figo, o Telmo o Rui Costa, o Filipe o Enke que já morreu, o Zé Mário, o Marreta, o Armandico teriam também os seus ídolos de cujo nome se apropriavam, mas que já não recordo. E agora o futebol, quando possível, entre duas ou três cervejas consoante a companhia, o sete, o Ronaldo entre herói invenciel e multimilionário, o Benfica babilónico onde Nelson Oliveira nos quinze ou vinte minutos que joga se vai prometendo como futuramente indiscutivel na selecção.
E agora não lhes levo mal, quer ao tio patinhas um materialista inveterado, quer a Dartacão por ser um fiel servidor do ancien régime, quer a Son Goku por fazer prevalecer a força sobre a razão ou por não triunfar pela força da razão mas quase sempre pela razão da força. Apesar de tudo parecem-me bons exemplos, melhores que Napoleão e Magno e Afonso Henriques.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A décima primeira - humildade da terra sem voz

Esta terra é uma lição de humildade sem voz. O nome e o verbo, ninguém, onde vos? Só se pode ser humilde sem voz, só se pode ser arrogante para alguém. Esta terra talvez um poema, um poema sem barulho, um poema afónico que só a alma sabe tocar. Só a alma o instrumento adequado para tocar a sinfonia sem barulho que é esta terra. A minha avó que não se ouve em excesso e as couves dela já todas comidas ou por ela, umas com ela, outras por outros como ela. A ameixeira do meu avô ora sem propriedade. Sempre me pareceu algo repugnante pela vaidade dos frutos perfeitamente amarelos como as pérolas das senhoras nas orelhas estas últimas amiúde ouvindo poemas sinfónicos em salas e teatros arrogantes. a ameixeira que creio sita aqui só tendo alma ouve e se a tivesse a do meu avô. Penso que a alma do meu avô morreu mais lentamente na ameixeira dele que nele. Ensurdeceu a ameixeira. No lago que o meu pai fez, multiplica-se peixitos que mudam de direcção tão facil e naturalmente como ele nunca conseguiu mudar. Á noite os postes sucedendo-se porque é noite, se fosse dia nem reparava. Reparei que se fosse dia não dava por eles. Alumiaram-me por dentro. A hora de ponta que não traz para casa mais que três ou quatro carros. A estrada à qual pouco importa se carros, se mulos, se pássaros pousando só para fugir quando passa algo como jogando
- não me apanhaste!
Gente com alma e sem voz. O velho, ora desordenando a areia no chão com um pauzito, ora o mesmo pau regendo a orquestra afónica aventurando-se sem razão no ar conforme o desentorpecimento dos ossos o permita e bem assim a lucidez da alma ou falta dela, não sei. As memórias sustendo-se em tudo o que ainda vigora, também humildes nunca ambicionando a existência das coisas sensiveis. Aqui recordo-me que quero esquecer tudo, talvez arrogante demais para ouvir com alma e de menos para os salões. Também não sei. Como outros aspiro ao silêncio.

A décima - incomum como os demais

Só não serei um homem comum porque todos os demais homens são homens incomuns. Se for incomum como todos os demais homens que são incomuns sou igual a eles incomum. Não posso ser o único homem comum. Não posso ser o único homem incomum. Só posso ser. Posso aspirar à distinção e à indistinção, aspirar, porém, e sempre como os demais. Indistinto ou distinto como os demais. Preso à humanidade como os demais. Agrilhoado à vida, temendo a liberdade da morte, temendo que é menos livre a morte que a vida. Estar vivo é ter medo de morrer, morrer é não puder sequer ter medo. Ter medo é mau, pior será não puder sequer ter medo. Tenho inquietantemente medo da vulgaridade, mais sabendo que vulgar ou invulgar sou sempre como os demais.

sábado, 3 de março de 2012

A nona - greve na prespectiva de Anselmo

Zé iniciara a conversa:
- porque não és como os demais?
Ancelmo pronta e lapidarmente retorquira:
- pela mesma razão que os demais não são como eu.
As coisas complicar-se-iam não fosse Vicente declarar que eram horas e mais que horas as de fechar o café. Já noutras circunstâncias a sucinta iniciação de Zé em Direito lhe havia permitido explicar a Anselmo que o direito à greve era um direito fundamental que todos tinham. Ao que Anselmo nessa altura dissera que o único direito fundamental é ter deveres. Zé ebuliu e incivilmente lhe atirara os maiores impropérios. Aparte as zangas, eram amigos, ou talvez apenas vizinhos e como por inerência amigos condição que o corriqueiro mexericar das esposas a casas alternadas fatalizava.
No dia da greve Anselmo saiu cedo. Aproveitou a greve para trabalhar, e protestos apenas com frio que entorpecia as mãos as quais bafejava com alma sempre quente. Plantara batatas o dia todo e no fim quando já mais quentes as mãos que alma o café de Vicente como nunca merecido lhe repusera integra e invergável a alma donde lhe havia rebentado a replica a Zé " pela mesma razão que os demais não são como eu"
O ano fora abundante. Não só as batatas de Anselmo se pareciam multiplicar na arrecadação consoante mais se tiravam, como nas ruas se multiplicavam os paralisados, as greves. Zé no dia da greve afundara na poltrona o sono. No dia da greve por mais geral que seja há sempre um sector que a ela não cede, as domésticas. Nem tão-pouco cede a fome e o sono só a ela cedendo permite que Zé exija à esposa o jantar e precisou que caldo verde. Caldo no qual, bem se sabe, são insupriveis as batatas. Emília esgotara-as dois dias antes, eram quase dez da noite. Não podia simplesmente privar Zé do seu caldo, era zanga certa e incerto o desfecho dela como cada vez mais temia. Divertiu o marido com uma qualquer trivialidade e deixara-o a ruminar mexericos enquanto descalçara os sapatos e fora pedir dispensadas a Zulmira três ou quatro batatas. Solicitamente carregara a amiga com sete ou oito das batatas que Anselmo adubara com a alma.
As dez e meia, o jantar estava na mesa. Zé desconhecendo a escassez do tubérculo e a saída da mulher, comia consolado. Anselmo que aquando da visita de Emília, que não odiava, se encontrava no banho conhecera do caso quando perguntou a Zulmira quem era e o que queria.
Zé no dia seguinte foi ao Vicente e perante Anselmo gabara o caldo a mulher. Anselmo sentiu que lhe haviam comido parte da alma. Paralizaram-se-lhe as palavras e nada disse.